Manhã de verão, em Ubatuba. Por Antonio Contente
Manhã de verão…A rapariga não era exatamente negra, nem exatamente mulata. A cor intermediária, contudo, exalava absoluta beleza, isso sem contar a própria criatura. Ainda por cima, naqueles trajes: saída de praia curtíssima, lenço amarelo amarrado na cabeça, esteira muito bem colocada sob o braço…

Ele já estava no elevador, a porta ia fechando quando a moça chegou correndo, ainda teve tempo de entrar. O fulano não levou propriamente um susto, mas a súbita presença ali o deixou, digamos, embasbacado. A rapariga não era exatamente negra, nem exatamente mulata. A cor intermediária, contudo, exalava absoluta beleza, isso sem contar a própria criatura. Ainda por cima, naqueles trajes: saída de praia curtíssima, lenço amarelo amarrado na cabeça, esteira muito bem colocada sob o braço. Para completar, inundou o exíguo ambiente com restos de perfume francês misturado a bronzeador. Um charme. Por Netuno e por Poseidon, mas também por Santa Rita do Passa Quatro: um charme!
Para surpresa do camarada, ela saltou no mesmo andar que ele. Terceira: começou e enfiar a chave na porta fronteira, enquanto ele fazia o mesmo na sua. Quarta: a dona para, se vira e murmura, com voz musicalíssima:
— Será que você…
Imediatamente ele se volta:
— Eu?…
— Essa chave – ela mostra os dentes, alvíssimos – acho que tá com defeito. Não consigo abrir.
— Deixa que eu tento – ele se adianta.
Após soltar a frase, o coração aos pinotes, começou a operar a fechadura. Foi facílimo. E, no instante em que abriu a porta, o riso da moça iluminou terra, mar e ar, ao murmurar:
— Não sei como lhe agradecer…
A verdade é que, ao entrar no seu próprio apê, nosso herói o fez perturbadíssimo. A presença da guria, primeiro no elevador, depois ali na quase íntima aproximação ante a fechadura, o encucou de maneira definitiva. E tanto que, minutos depois, desceu para o boteco que ficava no andar térreo do prédio, próximo ao centro comercial da cidade praiana.
Ao avistar o porteiro, que derrubava um café, o fulano se chegou, com jeito, com tato. Também pediu um, pagou, e, como havia mudado para o edifício fazia pouco tempo, e era praticamente o único morador no quinto andar onde os outros apartamentos permaneciam fechados fora da temporada, observa, assim como quem não quer nada:
— Ubatuba começa a lotar nesta época, não é?
— Sim – o porteiro geme – isso é todo verão.
— Todo?
— Bom – o funcionário coça a cabeça – pra lhe falar a verdade, neste ano a coisa tá meio fraca. A crise, talvez…
Agora, o morador novato queria lançar a pergunta que realmente interessava. Começou tateando:
— No meu andar parece que já tem mais gente.
— É, tão chegando. Em todos os andares os apartamentos começam a ser mais ocupados após o réveillon.
— Haverá problemas com garagem, não é mesmo?
— Isso além da bagunça. O senhor não imagina como as pessoas que só vêm nas férias aprontam. Principalmente a garotada…
— Por falar nisso, no 501 tem uma moça que…
— Não acertou abrir a porta e pediu ajuda?
— Ué, como você sabe?
— Ah, porteiro de prédio, em Ubatuba ou qualquer outra cidade do litoral, sabe de tudo.
— Sabe mesmo?
Diante da pergunta, o homem sorri com o canto da boca. Depois cicia:
— Se você tiver jeito e souber agir com classe…
— Eu…
— Mas tem uma coisa muito importante – o conselheiro ergue o indicador – ela só aceita dólares, euros, marcos alemães e libras esterlinas. Real, nem pensar…
O rapaz se assusta, porém logo se apruma, ao indagar:
— E cartão de débito, o que é que você acha?
A resposta veio com um encolher de ombros:
— Bom, aí eu já não sei…
O moço ofereceu uma breja ao porteiro e preparou-se para tornar a subir. O elevador ainda estava inundado pelo leve aroma. De perfume francês com bronzeador.
ANTONIO CONTENTE –
Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
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