dia seguinte

O tal dia seguinte: tudo que parece sólido desmancha-se no ar.

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“Pouco interesse pelas eleições”. Incrível como um direito de cidadania caiu na vulgaridade da indiferença de quem estava credenciado para ir às urnas. Virou quase um refrão pronunciado por 35 milhões de pessoas que diziam não pretender votar no primeiro turno. Corresponde a 22% do eleitorado. Esse número deve ser acrescido ainda de mais de 6 milhões de votos nulos, em branco ou cancelados por algum motivo não explícito. O pleito de 2026 registrou 41 milhões de ausentes (perto de 36%). As projeções já eram feitas, antes das eleições, dentro do próprio TSE. Errou-se por muito pouco. Mas acertaram no fato de que os eleitos, em sua maioria, para Presidente da República, Senador, Deputado Federais e Estaduais teriam a aprovação de um percentual menor de brasileiros que a soma do conjunto de abstenções, considerado que o eleitorado somava no total 158,7 milhões pessoas aptas a votar e foram às urnas apenas 117 milhões.

Os motivos dessa grande ausência estão praticamente explícitos. Por mais desinformado que seja o eleitor, esses resultados refletiram uma resposta do cidadão à corrupção generalizada; à falta de segurança pessoal; às fraudes do Banco Master; ao escândalo do INSS; à desqualificação da competência do Supremo Tribunal Federal para assegurar o cumprimento da Constituição; e até do Superior Tribunal Eleitoral para conduzir o pleito de 2026. Sobre cada juiz pairam desconfianças sobre a isenção jurídica. As mais brandas são, entretanto, as acusações de partidarismo.

As transgressões estão se generalizando. É preciso pensar nisso. Mais de R$30 milhões foram apreendidos, pela Polícia Federal, em ocorrências relacionadas a crimes eleitorais, informou neste domingo (4) o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues. Outros bens apreendidos somam R$ 45 milhões. A Polícia Federal instaurou 1.292 inquéritos policiais sobre crimes eleitorais, com mais de 2.200 investigações ativas e 62 operações realizadas. Cerca de R$ 383 mil, em dinheiro vivo, foram apreendidos com pessoas que tentavam a comprar voto até nas filas de votação.

De um total de 20.887 pedidos de registros partidários, apenas 30 partidos políticos e 11 federações e legendas tiveram a aprovação das Justiça Eleitoral para concorrer no pleito de 2026. Tiveram o aval da Justiça Eleitoral 23 mil candidaturas: 13, a Presidente da República; 195, a Governador; 314, para Senador (duas vagas por estado); 7.627, para Deputado federal; 11.516, a Deputado Estadual e Distrital. É realmente um grande emprego! Celebridades da televisão – animadores, cantores, atores, esportistas – com empregos altamente remuneradas, lançaram-se à aventura, confiando na sua visibilidade. A maioria perdeu. Da eleição de 2002 para a deste ano, o número de eleitores cresceu 2,3 milhões. Internamente, 571 municípios receberam urnas eleitorais para 517 mil seções. Cerca de 918 mil brasileiros que vivem no exterior, espalhados por 186 cidades, também votaram. O mais votado no Brasil para deputado federal foi o jovem Nikolas Ferreira (PL-MG) com mais de 3,2 milhões de votos. As agências de pesquisa todas vacilaram. Desta vez: muito.

Propagou-se intensamente que ir às urnas era um privilégio. Uma formulação abstrata que transcende as necessidades humanas objetivas. Percebeu-se que era, sim, uma oportunidade de se referendar a pretensão das pessoas de alcançar um bom emprego público por meio da política. Nenhum candidato ou partido trouxe, no seu cardápio, alguma novidade, nem uma solução efetiva para os problemas cotidianos da população, muito menos para as graves questões fiscais, abordadas com displicência na campanha. Os partidos do Governo minimizaram problemas graves, desviando-se deles com pequenas e indiferentes narrativas; os de Oposição os aumentaram a nível que eles mesmos não alcançam, traçando cenários futuros nebulosos. Paira no ar uma ameaça para as economias pessoais. Faz lembrar o “congelamento da poupança ” do Governo Collor de Mello.

A bipolarização do ódio não aconteceu. Mas todos mentiram deslavadamente ou escorregaram intencionalmente nas verdades. Nenhum daqueles indicadores citados nas campanhas pôde ser confirmado. As propostas dos candidatos chegavam à população fragmentadas por opiniões individuais, às vezes entre candidatos dos mesmos partidos, cujos programas desaparecem “nas nuvens” após as eleições. Repetiram-se promessas não cumpridas de pleitos anteriores. Nada, portanto, de novo. Tudo que parece sólido desmancha-se no ar, advertia Milan Kundera.  Sigmund Bauman chamava a atenção para o fato de que “Tudo é líquido”, dissolve-se facilmente. Quando você percebe, já era….

 “Last but not least”, ao fazer uma apologia ao pleito eleitoral deste ano, uma analista classificou as eleições como a “maior festa da democracia”. Para os vencedores, sim, mas os perdedores terão de enfrentar os dramas de pagar as enormes dívidas de campanha, cujo valor total não pode ser conhecido publicamente, porque atravessaram as contas públicas ou, em sua maior parte, foram procedentes de doações irregulares e doadores clandestinos, e não seriam reconhecidas como legítimas pelos Tribunais.

Os partidos e candidatos responsáveis seriam punidos com multas pesadas ou, no caso dos eleitos, poderiam chegar a perder o mandato antes de assumi-lo. São financiamentos – inclusive procedentes do exterior – vindos de fontes duvidosas. O Fundo Eleitoral destinou R$ 4,97 bilhões para as eleições de 2026, redistribuídos entre os 30 partidos e os 23 mil candidatos. As concessões pré-eleitorais, aparentemente legais, ultrapassariam os R$ 500 milhões.

Mas o grande desafio está por vir. Mantidas as atuais condições, o novo Governo terá à sua disposição a nomeação de quatro novos ministros para o Supremo Tribunal Federal e uma dezena de outros para os demais tribunais, quase um novo aparelhamento do Judiciário. Em uma entrevista a um jornal paulista, o cientista social Marcus Melo acaba de levantar dois problemas gravíssimos que o País tende a enfrentar ao longo do período pós-eleitoral: “um conluio (naturalização) cada vez maior” entre políticos e segmentos privados, “com suspeitas sobre o núcleo do Judiciário”; e a nomeação desses quatro novos ministros, para preencher vagas no STF.

Isso constitui-se não apenas um privilégio do chefe do Executivo, se não provocar uma profunda reforma no Judiciário, com a introdução de novos métodos de escolha dos ministros e a extinção da vitaliciedade do cargo. A atual composição do plenário do STF está desequilibrada. Dos 11 ministros, a maioria veio de um único partido. Corre-se o risco de o STF substituir seu próprio Regimento Interno por um programa político partidário.

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Aylê-Salassié F. Quintão –  Consultor de projetos sociais | Consultor da Catalytica Empreendimentos e Inovações Sociais. Jornalista, professor, doutor em História Cultural, ex-guarda florestal do Parque Nacional de Brasília. Vive em Brasília. Autor de  “AMERICANIDADE”, “Pinguela: a maldição do Vice”. Brasília: Otimismo, 2018
Autor, entre outros, de Lanternas Flutuantes:
Português –   LANTERNA FLUTUANTES, habitando poeticamente o mundo
Alemão – Schwimmende-laternen-1508  (Ominia Scriptum, Alemanha)
Inglês – Floating Lanterns  
Polonês – Pływające latarnie  – poetycko zamieszkiwać świat  
novo livro de Aylê-Salassiê: TERRITÓRIO LIVRE!

 

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