O Zaire e a dengue. Por Lula Vieira
Dengue…Não chega a ser algo criminoso, desonesto, impudico. É, como já disse, um mico fruto do medo do ridículo. Ou seja: um ridículo nascido do risco do ridículo. Vá entender a alma humana. Conto.

Já passou muito tempo, mas ainda tenho um pouco de vergonha em contar. Mas como os profissionais da psicologia vivem dizendo que a melhor maneira de se livrar de más lembranças é encará-las de frente, torno público um dos maiores atos de covardia que pratiquei.
Não chega a ser algo criminoso, desonesto, impudico. É, como já disse, um mico fruto do medo do ridículo. Ou seja: um ridículo nascido do risco do ridículo. Vá entender a alma humana. Conto. Quando minha agência atendia o Ministério da Saúde, fizemos uma campanha alertando a população sobre o risco de uma epidemia de Dengue e incentivando a todos se prevenirem, não permitindo que o mosquito se proliferasse. Criamos uma campanha bem bacana, baseado no filme “Nascido para matar” de Stanley Kubrick, que estava fazendo enorme sucesso naquele tempo.
Até o capacete, marca do filme, foi reproduzido, dramatizando a necessidade de declarar guerra ao Aedes aegypti. A pedido do Ministro da época, fiz uma apresentação no auditório do ministério, para umas duzentas pessoas entre médicos, sanitaristas e agentes de saúde. Como todo diretor de criação que se preza, fui histriônico, apresentando a campanha no melhor estilo Silas Malafaia, contando piadas e cantando o jingle ao vivo. A presepada de praxe.
Lá no fundo da sala eu percebi que se sentava um time inteiro de basquete dos Estados Unidos. Homões imensos, de cara fechada, não dando nenhum sorriso a todas as babaquices que eu falava. Não sei se com vocês acontece, mas basta ter um chato na plateia fazendo cara de quem não está gostando para a gente ficar incomodado. Foi assim comigo. Não entendia porque os caras não abriam um único sorriso. Será que eles eram a favor do Aedes aegypti, em nome do direito de se chupar livremente as pessoas? Ou pacifistas irritados com o clima bélico da campanha?
Fui tocando a apresentação como pude, e olhando com o canto do olho os caras lá do fundo. Quando terminei, um cidadão veio até mim, todo sorrisos, e se apresentou: “Lula, eu sou do Itamarati, e trouxe para conhecer a campanha uma delegação do Zaire”. Hoje o país se chama República Democrática do Congo, mas na época era Zaire mesmo. O diplomata continuou: “eles não entendem português. Seria possível você fazer de novo a apresentação, mas em inglês ou francês? Eles querem fazer a mesma campanha lá no Zaire”.
Eu não falo rien de francês. Logo, ia ter que ser em inglês mesmo, língua que, quando falo, Shakespeare morre mais um pouco. Pedi um tempo para ir ao banheiro e sai. Fiquei fazendo um xixizinho e pensando como passar para o inglês os textos da campanha. Comecei a perceber que ia ser um vexame. Meu conhecimento de inglês, básico, não iria conseguir verter alguns jogos de palavras dos textos, nem as sutilezas do plano de mídia.
Estava nessa angústia quando percebi que o banheiro ficava ao rés do chão e que havia um enorme janelão aberto para o pátio de estacionamento. Num repente que até hoje me deixa enrubescido, saí pela janela, peguei o carro e vim embora.
A delegação do Zaire esperou, esperou e (soube mais tarde) foi salva pelo diplomata que usando o material que eu tinha deixado sobre a mesa, apresentou a campanha. Até hoje quando entro em algum lugar tenho medo de me encontrar com o diplomata. Como explicar minha deserção? Esquecimento? Caí no banheiro e fui para o hospital? Fui abduzido por uns homenzinhos verdes?
No ministério nunca ninguém me perguntou nada. Só agora, umas três décadas depois, reuni coragem para contar esta história. E que sirva também como um pedido de desculpas aos médicos da República do Congo, com minhas sinceras esperanças de que eles tenham (ao contrário do Brasil) derrotado o Aedes e afastado o perigo de uma epidemia de dengue.
– Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.
