Pânico em Congonhas. Por Lula Vieira
A agência do Miranda foi contratada para fazer um lançamento imobiliário na região de Congonhas e resolveu inovar cercando o terreno com os balões cativos. Então, durante a madrugada cercou toda a área do empreendimento com os enormes artefatos coloridos que iam até o céu e podiam ser vistos por quase toda a Zona Sul da cidade…
Poucas pessoas podem se orgulhar de ter no currículo a façanha de ter parado o Aeroporto de Congonhas e, por consequência, a cidade inteira. Luis Carlos Miranda, um publicitário paulista, dono de uma empresa de promoção é uma das raras criaturas que podem esnobar afirmando que, ao contrário do que diz o slogan, São Paulo pode parar. E que ele foi o responsável. Isto, porque por conta de um lançamento imobiliário ele não só deu um nó na cidade como foi assunto para todos os noticiários do rádio e da televisão. Miranda e – claro – a mãe, ficaram no topo das atenções da capital durante uma manhã inteira. O problema é que a multa que sua empresa teve que pagar tirou-lhe qualquer sensação de orgulho.
Vejamos com calma a marcha dos acontecimentos. A história é meio antiga, data da época que surgiram no Brasil os imensos balões a gás, que foram usados à larga em promoções de todos os tipos. A agência do Miranda foi contratada para fazer um lançamento imobiliário na região de Congonhas e resolveu inovar cercando o terreno com os balões cativos. Então, durante a madrugada cercou toda a área do empreendimento com os enormes artefatos coloridos que iam até o céu e podiam ser vistos por quase toda a Zona Sul da cidade.
Como se sabe, o aeroporto fica fechado durante toda a noite, iniciando as operações à seis da matina. Pois foi nessa hora, hora da primeira Ponte Aérea, que a confusão começou. O comandante do primeiro Electra a decolar não entendeu a farra colorida que se erguia ao final da pista. Intrigado, consultou a torre, primeiro calmo e protocolar (“Atenção Congonhas, objetos aéreos não identificados ao final da pista…”) e, em seguida, completamente irado: “Torre, quer me explicar que merda é essa?”
Em seguida foi uma sucessão de intervenções no rádio, com todo o mundo da infraestrutura querendo saber o que faziam aqueles imensos balões que inviabilizavam qualquer operação aérea. Foi um jipe da FAB quem primeiro chegou no local do lançamento. E, mais uma vez, quebraram-se os rituais da comunicação. “Torre Congonhas, Torre Congonhas, são umas merdas de balões de gás amarrados no chão, vamos pedir permissão para abater essas porras e encanar todo mundo”.
Miranda, que estava no estande de vendas aguardando o sucesso de sua iniciativa, tentou justificar explicando que se tratava de uma campanha que lançava “magníficos apartamentos de quatro quartos e três vagas de garagem”. Os militares e, logo depois boa parte do pessoal da segurança, demonstraram não ter nenhuma sensibilidade promocional e, à medida que o acontecimento tomava vulto, planejavam punições cada vez mais radicais. É preciso lembrar que o clima era de intervenção militar e firulas jurídicas não eram as maiores cogitações.
O problema é que os balões precisavam de algum tempo para baixar. Tinham que ser deitados em terra para abrir suas válvulas. A bagunça foi total, pois a operação era necessariamente lenta. E à medida que o tempo passava, mais aviões entravam na lista de espera, agora engrossada pelos que chegavam do país inteiro (naquele tempo Congonhas recebia voos de todo Brasil).
Por medo de explosões, a ideia de abater os artefatos a tiro foi posta de lado. Televisões e rádios passaram a transmitir ao vivo diretamente do local. Como sempre, muita gente aproveitou a ocasião para aparecer e nunca um atraso de avião causou tantos problemas Brasil afora. Seguindo o procedimento técnico, aviões com destino a São Paulo passaram a ficar no solo em seus locais de origem, à espera da liberação da pista. Jamais uma ação promocional havia causado tanto impacto. Não sei se resultou na venda de algum apartamento. Mas a promessa feita ao cliente pelo Miranda foi cumprida.
A repercussão foi mesmo imensa.
– Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.
