Tempos difíceis se anunciam. Por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão
TEMPOS DIFÍCEIS, MOVIDOS POR TRAUMAS DO PASSADO
Em 2027 viveremos tempos difíceis. Uma herança maldita. É preciso largar os Bolsonaros para lá, e governar. Lula e o PT, na corporação sindical ou ocupando espaços públicos, tem se concentrado em estabelecer-se definitivamente no Poder por mais tempo possível…
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A eleição de 2026 ficou para trás. É coisa velha. Espernear pelas perdas é um direito do cidadão, mas a sucessão de problemas que provoca tem um custo muito elevado para a Nação, devido a morosidade da Justiça e a insegurança jurídica que provoca. Envolve milhares de cidadãos num debate público inócuo. Os perdedores devem concentrar-se nos seus erros. O País está paralisado. Não há tempo para ficar peleando, por causa dessas “brigas de comadre”, que vêm acontecendo sistematicamente nesses últimos anos.
Em 2027 viveremos tempos difíceis. Uma herança maldita. É preciso largar os Bolsonaros para lá, e governar. Lula e o PT, na corporação sindical ou ocupando espaços públicos, tem se concentrado em estabelecer-se definitivamente no Poder por mais tempo possível. José Dirceu previu 20 anos: já completou, incluindo o período de Dilma Rousseff. O legado dessa estratégia é meio caótico. Gerou crises internas e externas, como os confrontos retóricos com os Estados Unidos, com quem cultivamos relações históricas de amizade e negócios. Tenta empurrar o Brasil para os braços da China e da Rússia. Representantes de ambos estiveram por aqui nos últimos dias.
Lula chega agora ao quarto mandato, depois de um terceiro em que, voltado para manter o cronograma em direção à perpetuidade no Poder, exemplos que vem de fora, exerceu seu mandato tratando as políticas públicas com displicência. Gerou gastos excessivos, até fora do Orçamento, e descuidou intencionalmente do déficit das contas públicas. Ele está convencido de que o endividamento do Brasil ao chegar a 8 7% do Produto Interno Bruto (PIB) representa um aumento de apenas dois pontos percentuais na dívida. Foi assim no seu primeiro governo, e não foi diferente no segundo. Não está no modelo dele economizar. Pretende é gastar mais, e não cortar despesas. Na sua contabilidade, os gastos sociais e as “bondades” significam um acréscimo um percentual insignificante, embora aproxime a relação dívida x PIB dos 90% do PIB nacional. “Tempestade em copo d´água“. Observa, que não vai punir a população para atender às expectativas dos burocratas do Tesouro e dos banqueiros da Faria Lima. Lembra que endividamento dos Estados Unidos está em 180%, Japão, em 120%, Itália a mesma coisa, e assim outros países no mundo.
A comparação não ajuda. O Brasil tem seus próprios fantasmas: a dívida bruta situa-se em torno de R$ 10,8 trilhões para um PIB de R$13 trilhões, de acordo com o Boletim Prisma. O Banco Central projeta um aumento de R$ 60 bilhões para cada ponto percentual que se acrescenta. As “bondades distributivas” – Bolsa Família, seguro desemprego, BPC (renda mínima, pelo INSS, para os idosos e pessoas com deficiência que não contribuíram); o FAT- Fundo de Apoio ao Trabalhador; o Pé de Meia; e os demais abonos, incentivos e perdão de dívidas, acrescentam, por ano, mais no endividamento R$1,4 bilhão.
Seu grande sonho, e ele vai continuar a persegui-lo de alguma forma, é transformar a população brasileira numa “grande classe média”. Para isso, não deixou de pensar na taxação dos ricos e em aumento de impostos. Fala-se, a boca pequena, até num confisco das poupanças individuais e numa sobretaxação dos lucros no mercado financeiro. Mas a experiência do Plano Collor deixou um rastro traumático na população. Repeti-lo pode destruir de vez sua reputação e afetar sua imagem carismática incorporada de um “Salvador da Pátria”, “Nunca antes neste País”. Os economistas do Governo não se constrangem a incluir umas propostas como essas nas medidas possíveis, com o uso de decisões criativas, ou por meio de artifícios e pegadinhas inseridas nas operações de mercado e nos produtos de consumo.
Esta semana, na reunião do Copom (Banco Central), será dado o primeiro sinal sobre o que pode acontecer no esforço paralelo do Governo para controle do déficit fiscal e o ajuste da economia, ao ser fixada uma nova taxa básica de juros, a tal SELIC, atualmente em 13,75% ao ano. Existem três opções: prorrogar a que aí está, reduzi-la ou – na especulação catastrofista – um aumento para 16%, para conter a movimentação livre do dinheiro no mercado financeiro.
O economista Sérgio Gabrielli, um dos coordenadores da campanha de Lula, aquele que foi presidente da Petrobrás por sete anos e que quase a quebrou, levando-a para a Lava Jato, deixou escapar que o quarto mandato presidencial de Lula vai ser mais rigoroso com o movimento e a saída de capitais. Os investidores fugirão. Empresas brasileiras estão se transferindo para países vizinhos. Se tiver de acontecer, deverá ocorrer até o final deste terceiro mandato, porque no próximo Congresso, os partidos do Governo não terão tantas facilidades assim para transitar pelo Parlamento. Os partidos de Oposição serão maioria tanto no Senado quanto na Câmara, além de ter de enfrentar uma frentes de 18 novos governadores eleitos, que sofreriam para tentar atrair capitais para financiar seus débitos fiscais. Vão ser tempos difíceis.
As propostas do PT não satisfazem ao setor financeiro e há pelo menos 60 milhões de brasileiros que votaram na oposição. Temem se ver diante de uma disparada da inflação em 2027. Lula, por sua vez, em si, “faz ouvido mouco”. Age independente do que projetam os economistas. Traz consigo uma ideia fixa pelo “social”, cujos propósitos são quase pessoais: diminuir a distância entre a renda dos mais ricos e dos mais pobres, sobretudo no Nordeste. É carregada de vaidade, sim, mas, sobretudo, do trauma contra o histórico do domínio exercido sobre a população da região por duas a três centenas de famílias oligárquicas que remanescem com seu poder sobre 57,4 milhões de habitantes. Daí seu compromisso com os nordestinos. Já se declarou até ser descendente de cangaceiro.
Sua inspiração vem da pobreza endêmica alimentada pela fome na região, que gerou, no passado, flagelados e retirantes como a própria família. Em 1952, o casal Dona Lindu e o senhor Aristides, seus pais, foram obrigados a deixar a vila de Caetés, no agreste de Pernambuco, em um caminhão “pau de arara” e desembarcaram em São Paulo com os cinco filhos menores para procurar uma alternativa de sobrevivência. Na infância, Lula chegou a ser engraxate nas ruas de Santos. Invisível nos anos iniciais, seria protagonista, anos depois, na luta dos trabalhadores, por meio do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo; na criação do PT, até chegar à Presidência da República.
Sua irreverência política – modo de ver o mundo – chancelou transgressões amplas no campo da gestão pública, Lula tem contas a prestar pelo manuseio criativo (irregular) das contas do Tesouro. Ele parece ser também o responsável direto pela desestabilização política interna, ao contribuir para respaldar o ódio na política entre seus seguidores e os opositores nas ruas. Atribui-se a ele a politização no Supremo Tribunal Federal, ao aparelhá-lo com seus amigos pessoais. Pesa sobre seus ombros a conivência com a irresponsabilidade constitucional de ministros do Supremo Tribunal Federal.
A história de Lula é uma saga, uma narrativa longa e épica, centrada no combate à pobreza e à fome, que fizeram milhares de mortes no Nordeste. Ele viu isso de perto. Por osmose, impregnou-se dessa imagem e, por isso, em grandes e heroicas aventuras no sindicalismo e na política, sempre defendeu a justiça social. Sua cabeça, brilhante e descompromissada com a ética burguesa, funciona diferente. Já disse que nunca leu um livro. Aprendeu vivenciando a realidade da pobreza. Poucos dos que sobrevivem ao seu redor podem contar algo tão traumático.
Então, os economistas e administradores, forjados nas melhores universidades no Brasil e no exterior, defensores do controle fiscal não devem esperar muito de Lula. Ele não mudou, e não vai mudar, segundo os mais íntimos. Aos 81 anos, pesa nas suas reminiscências o quadro grave de carências vivido na sua infância e na adolescência. Traduzir seu pensamento só mesmo um ministro da Fazenda piauiense. Ele mesmo não consegue incorporar totalmente sua função de chefe de Estado ou de estadista. Daí que os traumas pessoais, ainda curtidos, não são solução para posturas excessivamente burocráticas e acadêmicas.
Acredita-se, entretanto, que, em seu último mandato, que termina em 2030, ele já com 85 anos vai procurar deixar uma marca distinta entre os Presidentes do Brasil ao longo dos mais de 100 anos de República. É o que mais tempo esteve no Poder. Supera Getúlio Vargas, um gaúcho, que, apesar das medidas sociais introduzidas no seu Governo foi lembrado sempre como “pai dos ricos”.
O quarto mandato parece um momento de rupturas e transições: fórmula de compatibilizar o modo de produção arcaico ainda no Brasil, com a introdução das novas tecnologias, a Inteligência Artificial, e a implantação do regime de 5×2. Contudo, alguém presta atenção na sua aproximação, aparentemente de iniciativa pessoal, em nome do Brasil, cada vez mais estreita com a China e a Rússia e, em consequência, um distanciamento nas relações com os Estados Unidos que pode trazer dificuldades para o seu governo .
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