Um santo para Santos. Por Antonio Carlos Fonseca Cristiano
Como São Paulo deve olhar para baixada

Publicado originalmente no DIÁRIO DO LITORAL, edição de 20 de agosto de 2026
Falta pouco para mais uma eleição. E, como santista, acredito que há uma pergunta central para o debate político, fundamental não apenas para nossa cidade, mas para toda a região: se Santos abriga o maior porto do país e assume os impactos econômicos, urbanos, sociais e ambientais dessa atividade, qual parcela do investimento público nacional deve retornar aos municípios da Baixada Santista?
Buscar essa resposta deve ser compromisso de todos os candidatos que pretendem representar a região e também daqueles que se apresentam como representantes do Estado de São Paulo.
Em princípio, a resposta não deveria ser difícil. Queremos aquilo que qualquer cidadão espera do poder público: mais segurança, mais saúde, melhor mobilidade, infraestrutura robusta, mais emprego e qualidade de vida. Mas queremos, principalmente, que as necessidades da nossa região deixem de ser tratadas como promessas recorrentes e passem a fazer parte de uma agenda efetiva de desenvolvimento.
Essa expectativa precisa estar presente na disputa pelas 70 vagas de São Paulo na Câmara dos Deputados e pelas 94 cadeiras da Assembleia Legislativa. São milhares de candidatos buscando representar o estado que forma a maior bancada do Congresso Nacional. É legítimo, portanto, perguntar quantos deles conhecem de fato a realidade da Baixada e quais compromissos concretos estão dispostos a assumir com a região.
Santos tem uma característica que poucas cidades brasileiras possuem. Somos um município com importância que ultrapassa nossas fronteiras. Aqui está o maior complexo portuário da América Latina, por onde passa uma parcela fundamental do comércio exterior brasileiro. Seu funcionamento influencia cadeias produtivas, empresas, trabalhadores e consumidores em todo o país.
O crescimento do Porto e da região depende, naturalmente, do desempenho da economia brasileira. Mas a relação também funciona no sentido inverso. A economia do Brasil também depende de um Porto de Santos eficiente, seguro, moderno e integrado à cidade e à baixada.
Nossa economia não se resume à atividade portuária. Temos turismo, serviços, indústrias na região, comércio forte e uma extensa cadeia logística que movimenta empregos e riqueza muito além do litoral paulista. Por isso, quando defendemos melhores acessos ao Porto, mais mobilidade, segurança, habitação, qualificação profissional e adaptação às mudanças climáticas, não estamos apresentando apenas uma lista de demandas locais. Estamos falando de investimentos estratégicos para São Paulo e para o Brasil.
É justamente por isso que o debate eleitoral não pode se limitar a manifestações de apoio ou declarações genéricas sobre a importância de Santos. Existem projetos relevantes em andamento e outros que, finalmente, começam a sair do papel. São avanços que precisam ser reconhecidos. Mas reconhecer avanços não significa abrir mão da fiscalização.
Qual é o cronograma? Qual é a prioridade? Quanto será investido? De onde virão os recursos? Quem será responsável pela execução? Quais contrapartidas serão destinadas às comunidades afetadas? E, principalmente, quando o cidadão perceberá os resultados em sua vida cotidiana?
Essas são as perguntas que o santista precisa fazer.
E as respostas devem abordar temas concretos. Estamos falando sobre os impactos e as desapropriações relacionados ao Túnel Santos-Guarujá, a segurança pública e o enfrentamento ao crime organizado, a separação entre os fluxos urbanos e portuários, a ampliação da mobilidade metropolitana, a capacidade da rede regional de saúde, a proteção contra enchentes, ressacas e elevação do nível do mar, a formação dos jovens para as novas profissões e a destinação das receitas e contrapartidas associadas ao crescimento do Porto.
Também é necessário discutir um mecanismo permanente para que uma parcela da riqueza produzida pela atividade portuária retorne à região. Santos não pode depender somente de emendas parlamentares esporádicas ou de negociações realizadas a cada novo empreendimento. É preciso estabelecer fontes, critérios e prioridades capazes de transformar a importância nacional do Porto em investimentos contínuos nos municípios que suportam diretamente seus impactos.
Essa cobrança não significa ignorar o que já foi realizado. Significa reconhecer que obras estruturantes exigem continuidade, planejamento e velocidade compatíveis com a dimensão dos problemas que pretendem resolver. Não podemos esperar que os gargalos atinjam um ponto ainda mais crítico para, somente então, decidir o que fazer. O santista espera que as demandas históricas da cidade e da Baixada sejam tratadas de acordo com a importância que realmente possuem.
Santos movimenta o Brasil. É nesse ponto que começa a responsabilidade dos futuros representantes. Candidatos ao Executivo e ao Legislativo precisam olhar para a Baixada não apenas como território eleitoral, mas como parte essencial da estratégia econômica de São Paulo e do Brasil.
Mais do que procurar um santo que faça milagres pela cidade, precisamos escolher representantes que assumam compromissos concretos e sejam capazes de entregá-los.
Vamos em frente!
ANTONIO CARLOS FONSECA CRISTIANO, “Caio” – Empresário, santista. Presidente da Marimex Inteligência Portuária em Logística Integrada.
