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O aperfeiçoamento da corrupção. Edmilson Siqueira

… Da voracidade petista todos já tínhamos conhecimento, já que sua história se confunde com a evolução da corrupção no Brasil. Aperfeiçoaram-na de tal modo que bateram recordes mundiais de desvios de dinheiro público. Criaram quase que do nada, empresários bilionários que dividiam parte das  fortunas que angariavam via licitações combinadas, com os agentes políticos…

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Enquanto o país tenta enfrentar, sem muita ajuda do governo federal, a maior pandemia da história recente, as quadrilhas instaladas nos três poderes deram um jeito de melhorar a vida delas. Aproveitaram não a distração causada pela preocupação com a covid-19 que vai chegar a meio milhão de mortos nos próximos dias, mas a combinação perfeita entre a fome e a vontade de comer que se instalou nos poderes brasileiros.

No Legislativo eleito junto com Bolsonaro, o PT fez maioria juntamente com o partido que elegeu o presidente. Adversários ferrenhos durante a disputa eleitoral, logo perceberam que tinham algo em comum: a sede pelo dinheiro público.

Da voracidade petista todos já tínhamos conhecimento, já que sua história se confunde com a evolução da corrupção no Brasil. Aperfeiçoaram-na de tal modo que bateram recordes mundiais de desvios de dinheiro público. Criaram quase que do nada, empresários bilionários que dividiam parte das  fortunas que angariavam via licitações combinadas, com os agentes políticos, de tal modo que os agentes não só ficassem milionários como pudessem contar com milionárias somas de dinheiro vivo para fazer campanhas eleitorais e se garantirem no poder. Era um plano perfeito e, caso a Lava Jato não avançasse sobre a farra, é bem provável que o PT atravessasse o século 21 no poder.

Já os bolsonaristas, espalhados por vários partidos, descobriram que o presidente era chefe de uma quadrilha familiar especializada em ficar com parte dos salários dos empregados em seus gabinetes, que tinham ligações com milícias cariocas e que eram chegados num lavagem de dinheiro – coisa pouca que uma franquia de chocolates era capaz de suportar. Como a maioria desses políticos entrou na política para “se dar bem”, logo perceberam que, de quadrilha familiar, os bolsonaros iam tentar subir de patamar. Era, evidentemente, enganação aquela história de combater a corrupção e até de botar Sergio Moro no governo.

Os bolsonaristas logo perceberam que, para “se dar bem” teriam de se relacionar com quem entende do riscado, com quem no mel do erário já tinha se lambuzado. O PT estava ali mesmo, sentado ao lado no plenário do Congresso e, claro, o entendimento foi perfeito.

Enquanto petistas conseguiam destruir a reputação de pessoas honestas, contando para tanto com a inestimável turminha do STF, sempre pronta a defender os fortes e opressores, desde que tenham roubado muito, os bolsonaristas atuavam em outra frente: a da destruição das leis que dificultavam a roubalheira.

Pelo  Judiciário, os petistas e seus asseclas foram sendo soltos um a um, inclusive o chefe de todos os chefes, que agora posa de candidato da esperança, em mais uma formidável fraude eleitoral que se avizinha. Ao mesmo tempo, acusações baseadas em provas que não se sustentam em qualquer tribunal do mundo, mas que aqui encontraram campo fértil no descarado cinismo de magistrados, foram sendo colecionadas de tal modo que os primeiros heróis do combate à corrupção que o Brasil já teve podem acabar presos ao final da farsa que se plantou no país. Sem poderes já estão. Seus atos estão sendo ou serão anulados todos. As quadrilhas estão voltando às ruas e participando de licitações federais.

Do lado do Executivo, a coisa foi tão descarada quanto. Ao perceber que a lei se aproximava da franquia criminosa que mantinha com filhos, familiares e amigos, Bolsonaro tratou de enfrentar Moro, exigindo que ele traísse seus princípios e passasse a ser o guardião da imoralidade pública. A recusa, natural e óbvia, de Moro a se tornar bandido, fez com que ele saísse do governo, deixando o caminho livre para que a quadrilha familiar se expandisse formidavelmente. A compra de uma mansão de mais de 6 milhões de reais pelo filho mais velho do presidente e para a qual vai pagar prestações acima do seu salário de senador é, talvez, apenas o primeiro ato da nova face da quadrilha. Agora, ao invés de imóveis de um milhão no Rio de Janeiro, mansões na área nobre de Brasília que custam seis vezes mais.

As quadrilhas do Legislativo foram então formadas para dar o golpe final no esquema todo. Os projetos de lei que tratam da prisão em segunda instância e do foro privilegiado foram esquecidos nas milhares de gavetas suspeitas que abundam no Congresso. E leis que visam tão somente facilitar a vida da bandidagem no assalto ao erário, foram aperfeiçoadas, de tal modo que fique impossível que um agente público seja punido depois de se enriquecer ilicitamente e, por exemplo, comprar mansões cujas prestações não cabem em seus salários.

Assim, de mãos dadas e olhares voltados para um futuro farto e próspero estão hoje as quadrilhas instaladas nos três poderes da República brasileira. O grande golpe foi dado com o afrouxamento da Lei da Improbidade Administrativa e será muito difícil que o caminho da decência e da honestidade venha a ser trilhado um dia.

As eleições que se avizinham serão  a maior farsa que o Brasil já viu – e olha que a concorrência é grande. As duas famiglias já se entenderam muito bem e, vença quem vencer, o butim será dividido de forma quase igualitária, pois não haverá leis para punir os corruptos e, mesmo aqueles que  porventura tenham se distraído e deixado um caminhão de provas pelo caminho, não precisarão se preocupar: o tempo de investigação e de prescrição é tão curto na nova lei e o processo é tão cheio de recursos, que mal dará para sair da segunda instância e ele já será devidamente arquivado sem qualquer punição para o criminoso.

É o Brasil se aperfeiçoando cada vez mais na arte de enganar os pagadores de impostos e de enriquecer os tradicionais corruptos que são folgada maioria entre os políticos e agentes públicos do país.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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