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Conversas de 1/2 minuto. Por José Paulo Cavalcanti Filho (10)

 Continuo com conversas de livro que estou escrevendo (título da coluna).

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CELSO FURTADO, economista. Reunião marcada em seu apartamento da Conrado Niemeyer. Uma ruazinha tranquila de Copacabana que se toma, subindo a República do Peru, até quase o morro. Marcou 5 da tarde – “5 en punto de la tarde em todos los relojes”, como no verso de Lorca em homenagem ao toureiro Ignacio Sánchez Mejías, morto em um triste dia de agosto de 1935. Cheguei antes da hora, não quis subir e tive tempo de ler três inscrições pintadas, no asfalto, em frente a seu edifício. Duas mais velhas,

– Lídia, nosso amor é impossível. Adeus, querida. Sempre teu, João.

– Lídia, penso que me enganei. Aposte em nosso amor. Liga, Lídia. Por favor.

E a terceira, mais recente,

– Pô, Lídia, três meses e nenhum telefonema?

Sem assinaturas, as duas seguintes. Mas a mesma letra. Já no apartamento, olhando para baixo desde seu terraço, dava para ler as frases escritas na rua. E perguntei, a Celso, como iria findar aquele amor impossível.

– Tem jeito não. É mais fácil consertar o Brasil.

HUMBERTO WERNECK, escritor. Ligaram para sua casa.

– Alô, senhor Humberto?

– Sim, quem fala?

– Senhor Humberto, aqui é do Lar do Idoso.

– Aqui também.

 JOÃO LYRA, usineiro em Alagoas. No escritório, por trás de sua mesa de trabalho, há dois enormes pôsteres. Um de Hitler, o outro do Papa Pio XII. Não resisti e perguntei

– Desculpe, dr. João, mas a qual desses dois senhores o senhor obedece?

– Quando é para fazer o bem, meu filho, é esse,

e apontou para o Papa.

– Mas, se for para o mal…

NÁSSARA, cartunista. Estávamos indo para Petrópolis, fazer já nem sei o quê. Eu, na direção. A meu lado, na frente, Jaguar. Atrás Millôr, Chico Caruso e, no meio, Nássara. Gênio. E surdo. Fazíamos as perguntas, Jaguar escrevia num caderno, mostrava e ele ia respondendo. Falou quase duas horas, sem parar. Já chegando, Jaguar arrancou do caderno as folhas com perguntas, fez um bolo, abriu a janela e disse

‒ Isso é que eu chamo jogar conversa fora.

E jogou mesmo.

OSCAR COUTINHO, médico. Fez todos os exames em Salmen Giske. Enquanto atendia, o paciente ia falando sobre sua vida. No fim, Oscar,

– Já sei o que pode resolver seus problemas, Salmen.

– Diga.

– O Banco.
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José Paulo Cavalcanti FilhoÉ advogado e um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comissão da Verdade. Vive no Recife.

jp@jpc.com.br

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