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O fim da razão. Por Edmilson Siqueira

O governo Bolsonaro, que caminha para ser o pior da história do Brasil, mesmo com a gigantesca concorrência, é também uma negação do óbvio em todos os sentidos, extrapolando essa condição para seus seguidores, que hoje são praticamente a metade daqueles que o elegeram.  

RAZÃO

Uma piadinha que já teve algumas versões diferentes tem feito sucesso nas redes sociais. Um sujeito diz uma coisa óbvia, tipo “amanhã é domingo” e o outro responde: “Na sua opinião”. Não sei quem foi o primeiro a descobrir a absurda graça contida no fim da razão nos tempos em que vivemos, mas foi uma sacada genial.

Pois é isso mesmo que estamos vivendo nos últimos anos e, ouso dizer, trata-se de um mal que vem se alastrando ao longo deste novo século.

A negação do óbvio começou a ganhar corpo por aqui com o governo petista, logo após o primeiro grande escândalo, que ficou conhecido como Mensalão. Depois de constatado o roubo do dinheiro público, juízes e advogados se desdobraram em teses e mais teses para desdizer o óbvio: que o principal articulador de tudo não tinha sido o presidente da República e sim alguns de seus funcionários, sem que ele soubesse da trama. Ora, quem conhece um mínimo do poder sabe que nada acontece em relação às finanças sem que o chefe saiba. A total absolvição de Lula no Mensalão deu início, no Brasil, à refutação do óbvio, fato que interessava politicamente a alguns grupos e que se disseminou pelo país.

A partir daí, Lula pôde continuar governando e planejando outros saques ao dinheiro público para comprar aliados, se enriquecer e se manter no poder. O plano deu certo, Lula foi reeleito e o esquema de corrupção continuou avançando espetacularmente sobre as estatais e sobre ministérios.

A Lava Jato desvendou tudo isso, colocou muita gente na cadeia, mas, baseados na teoria da negação do óbvio ou do fim da razão, e na cooptação de juízes do STF à teoria, todo o trabalho de anos de investigação e de milhões de reais gastos para punir a corrupção foi por água abaixo. As enormes evidências da culpa dos corruptos se transformaram em “opinião de alguns procuradores e juízes de primeira instância” que acabaram derrotadas em instâncias superiores abastecidas por milionários advogados. Advogados que jamais tiveram qualquer pudor em serem regiamente pagos com o dinheiro da corrupção, o que é proibido, por exemplo, nos Estados Unidos. A óbvia receptação de dinheiro roubado no caso é olimpicamente ignorada pelas leis brasileiras, justamente para favorecer a poderosa classe dos causídicos.

O fim da razão nos processos criminais que envolvem poderosos prosperou a tal ponto que o Brasil hoje está em vias de punir aqueles que descobriram e tentaram acabar com a sistêmica corrupção no país. Se não forem pra cadeia – o absurdo dos absurdos – tenta-se que sejam impedidos de participar da vida pública através de eleições, criando uma inconstitucional quarentena de cinco anos para que se candidatem.

Depois de se tornar vitoriosa no campo jurídico, a tese do fim da razão acabou ganhando corações e mentes de milhões de brasileiros que, mesmo frente às evidências todas de que uma quadrilha havia se instalado no poder, continuou votando no PT, reelegendo Lula e depois elegendo e reelegendo uma pessoa disléxica que tinha vaga noção do que seria governar um país.

Quando finalmente o Brasil conseguiu se livrar de Dilma Rousseff através de um processo de impeachment, as eleições seguintes tiveram o condão de afastar de vez o fantasma petista do poder. Cerca de 50% dos eleitores que elegeram Bolsonaro o fizeram simplesmente para impedir que o PT voltasse através de um candidato que nada mais era que um poste ali plantado pelo ex-presidente Lula que, seria, de fato, o presidente a mandar no governo e no país.

O governo Bolsonaro começou com grandes esperanças de que a corrupção ia ser finalmente debelada, a economia rumaria por caminhos normais e o Brasil poderia voltar a ter esperanças de inserção no concerto mundial das nações e se tornar um parceiro importante no desenvolvimento do mundo.

Mas a tese da negação da razão prevaleceu. Antes de a pandemia se instalar de mala e cuia no país, onde encontrou terreno fértil para sua proliferação por conta também da negação da ciência, Bolsonaro já havia forçado a saída de Sergio Moro do governo, e antes, de alguns aliados de primeira hora que ousaram ter alguma opinião divergente da do tresloucado ex-capitão.

As promessas todas de campanha foram sendo todas descartadas e o que era uma esperança de mudança acabou se transformando num pesadelo do mesmismo. O governo Bolsonaro, que caminha para ser o pior da história do Brasil, mesmo com a gigantesca concorrência, é também uma negação do óbvio em todos os sentidos, extrapolando essa condição para seus seguidores, que hoje são praticamente a metade daqueles que o elegeram.

Já se cantou por aí em livros famosos, principalmente de autores de esquerda, o “fim da história”, quando o processo socialista soviético caiu por terra e a China virou um misto de ditadura de esquerda com economia de direita, usando o que há de pior em um e outro sistema para se agigantar perante mundo.

Pois acho que estamos vivendo, neste século, o fim da razão. Lula, que comandou o maior processo de corrupção da história e que fez o Brasil regredir em muitos aspectos, perdendo a chance de se desenvolver de modo sustentável, é hoje o favorito para vencer as eleições no ano que vem. E Bolsonaro, que está desgraçando o Brasil muito mais que todos os outros presidentes anteriores juntos, apesar de ter perdido metade do seu eleitorado, ainda é forte concorrente a chegar a um segundo turno.

A falta da famosa terceira via não se dá por falta de bons nomes para assumir a empreitada. Ela ocorre porque uns 70% de eleitores perderam a razão: vão votar no maior ladrão que o governo brasileiro já teve ou no pior presidente de todos os tempos. Se ambos estivessem com 5% das intenções de votos – que é o número de imbecis que eu pensava que houvesse no Brasil – e outros candidatos, sensatos, com carreira política saudável, estivessem disputando os outros 90% do eleitorado, a razão e o bom senso teriam prevalecido diante da insanidade que representam os nomes de Lula e Bolsonaro.

Mas é ao contrário: Lula e Bolsonaro estão na frente das pesquisas, impulsionados por uma legião de ensandecidos que vê neles grandes políticos, verdadeiros mitos, e não um genocida ou um incorrigível corrupto.

É o fim da razão.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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