LAICO

Estado laico, só que não. Por Jaime Pinsky

ESTADO LAICO, SÓ QUE NÃO

JAIME PINSKY

…Utilizar-se da ascendência que o professor tem sobre os alunos para impingir seus dogmas religiosos ou políticos é uma covardia, uma espécie de assédio…

LAICO

Artigo publicado originalmente no blog do autor, edição de novembro de 2020

Uma famosa frase atribuída a Heródoto afirma que o Egito é uma dádiva, um presente do rio Nilo. Presente é algo que recebemos sem dar nada em troca, algo que não tem custo. Provavelmente o historiador grego, impressionado pelas pirâmides e demais monumentos construídos milênios antes da época em que viveu, pretendeu minimizar o papel dos egípcios, alegando que tudo que fizeram se deveu a um acidente geográfico, à presença do rio redentor. Enquanto isso, segundo ele, os gregos tiveram que se esforçar muito para conseguir criar a sua civilização. Heródoto, com sua frase, “esquecia” que sem o trabalho duro dos camponeses e dos servos, sem a capacidade administrativa e os conhecimentos matemáticos dos escribas e dos demais funcionários do faraó, o rio não teria sido domado e a civilização egípcia não teria existido. Não era o rio que plantava e colhia, ele rio não carregava pedras para as construções, o Nilo não dominava a técnica de embalsamar e conservar os corpos por séculos e até milênios.

Quero deixar claro que não existe, nem jamais existiu, ao longo da História, sociedade alguma que não tenha feito um grande esforço para atingir seus objetivos, com Nilo ou sem ele. De resto, é importante registrar que seres humanos tomados individualmente não são nada, eles só constroem alguma coisa quando se organizam em sociedade. Afinal, e não me canso de repetir, o ser humano é o único dentre todos os animais que produz, organiza, armazena e consome cultura. É a cultura que nos diferencia de todos os demais animais com quem partilhamos este planeta.

… não existe uma História sem uma sociedade organizada. Indivíduos isolados não fazem História. Bichos podem ser bonitinhos, mas não fazem História. Melhor dizendo, animais e plantas (e pedras) podem fazer História Natural, nunca História Social…

Estabelecemos, assim, duas bases para compreendermos a trajetória dos seres humanos: a primeira é que não existe uma História sem uma sociedade organizada. Indivíduos isolados não fazem História. Bichos podem ser bonitinhos, mas não fazem História. Melhor dizendo, animais e plantas (e pedras) podem fazer História Natural, nunca História Social. E é desta que falamos quando nos referimos a acontecimentos históricos, ao processo histórico, das conquistas civilizatórias.  A segunda questão é igualmente importante: se não tivéssemos sido (e se não formos) capazes de produzir cultura teríamos deixado de lado nossa faceta mais humana. Se não formos capazes de transmitir cultura (e não esqueçamos, a ciência faz parte da produção cultural de uma sociedade) ela teria que ser recriada, do zero, a cada geração. Aí entram em cena o professor e o livro, que têm sido os mais eficientes veículos utilizados pela sociedade para transmitir o patrimônio cultural da humanidade de uma geração para outra.

Ser professor é uma honra e uma enorme responsabilidade. O professor deve ser reconhecido, mas precisa estar preparado. Se, de um lado, é justo que goze de reconhecimento social (o que não acontece muito), receba salário adequado (o que não acontece quase nunca) e tenha condições de trabalho dignas (sem riscos, sem ameaças e espiões gravando suas aulas), por outro tem que fazer jus à sua função, preparando-se adequadamente, buscando atualizar-se e não transformando a sala de aula em palanque para pregação política, ou religiosa. Utilizar-se da ascendência que o professor tem sobre os alunos para impingir seus dogmas religiosos ou políticos é uma covardia, uma espécie de assédio. Lembro-me até hoje da insistência com que um professor de ginásio procurava me converter às suas convicções religiosas, sendo que sua matéria não tinha nada a ver com rezas, templos religiosos, céu e inferno. Da mesma forma sabemos que há professores que se permitem sugerir candidatos para serem votados por alunos e familiares, como se fosse em busca de orientação eleitoral que os alunos estivessem na escola.

Professores e escola devem ter um compromisso com a República, como ocorre atualmente na França, em que a laicidade é, não apenas recomendada, mas exigida. O governo de Macron está lutando pelas conquistas da revolução de 1789, que acabou com a relação incestuosa entre poder político e religião.

Relação esta ainda, espantosamente, vista como normal até em estados supostamente democráticos, que permitem a certas religiões imiscuir-se em assuntos que não têm a ver com questões do espírito, mas a coisas relativas à área médica, como a melhor forma de cuidar do corpo da mulher… E nem estamos falando de países em que o Estado submete-se a uma religião oficial, mas de repúblicas (como a nossa) que se orgulham de serem democráticas e laicas.

Pelo bem da República, mas também das próprias religiões, não seria melhor cada uma cuidar de sua área e não tentar se imiscuir onde não lhe deveria caber voz e voto?

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JAIME PINSKY: Historiador, professor titular da Unicamp, autor ou coautor de 30 livros, diretor editorial da Editora Contexto. Autor de vários livros sobre preconceito, cidadania e escravidão.

jaimepinsky@gmail.com

www.jaimepinsky.com.br

 

 

6 thoughts on “Estado laico, só que não. Por Jaime Pinsky

  1. JAIME PINSKY, o que está em jogo é o assassinato do professor. Então você está de acordo que o professor seja assassinado? Se o professor fez algo de mal, existem os tribunais para julgá-lo e não loucos islamistas para “condená-lo” à morte.

  2. Li e reli seu texto pois tinha ficado c0m uma dúvida: o prof. Pinky teria escrito se referindo a algum acontecimento verificado no Brasil ? Minha dúvida foi desfeita por um leitor com um comentário já postado a respeito. Trata-se mesmo do professor Samuel Paty. Neste caso, valho-me do fato de termos quase a mesma idade, para lhe dizer francamente: – você pisou na bola ou mal se informou sobre o que se passou na periferia de Paris, e, neste caso, não deveria ter comentado.
    O professor Samuel Paty falou em duas aulas, sobre liberdade de expressão, já que fazia parte das suas atribuições. Era professor do curso secundário de história e geografia, cuidava também do ensino “moral e cívco”. No ano passado, já havia promovido um debate na classe com os alunos sobre liberdade de expressão e as caricaturas de Maomé, na revista satírica Charlie Hebdo, sem ter havido quaisquer reações extraescolares.
    Laicidade é isso, é também debater o impacto que possa haver entre os religosos de uma obra de escultura, de uma peça teatral, de um filme ou de uma música profana que não seja gospel. Como bem afirmou o presidente Macron na rádio Al Jazeera, a França não pretende recuar e continuará defendendo a liberdade de expressão em todos os domínios inclusive nas caricaturas.
    “C’était au programme pour l’EMC (enseignement moral et civique, ndlr), c’était pour parler de la liberté par rapport à l’attentat de Charlie Hebdo, qu’il montrait ces images, les caricatures”, explique une élève.” publicou um jornal ffancês.
    Seu texto nada tinha de reprovável, ao contrário, até inserir uma frase como esta, referindo-se à figura do professor: “buscando atualizar-se e não transformando a sala de aula em palanque para pregação política, ou religiosa. Utilizar-se da ascendência que o professor tem sobre os alunos para impingir seus dogmas religiosos ou políticos é uma covardia, uma espécie de assédio.” !!!??? Se esse texto se refere ao que teria ensinado Samuel Paty aos seus alunos, antes de ser decapitado, é uma afronta!
    Os exemplos citados, logo a seguir, de professores que ensinavam religião ou queriam influir em matéria política nada têm a ver com o professor Samuel. Ele explicava e debatia com os alunos a questão da liberdade de expressão na imprensa.
    Como bem diz Joma, no primeiro comentário, se alguns pais de alunos achassem incorreto o debate promovido pelo professor, poderiam se queixar à diretora da escola ou mesmo entrar com um processo, mas não decapitar o mestre.
    Sua referência embora sem citação explícita ao atentado islamita acaba por nos deixar em dúvida quanto ao seu conceito de liberdade de expressão, embora nos deixe claro seu conceito capenga de laicidade, digna da época do Estado Novo quando estudávamos: professor ensina mas não abre o bico. Lamentável!
    Se esta chamada para o artigo se referir ao professor Samuel, considero-a como um insulto à vítima decapitada. …Utilizar-se da ascendência que o professor tem sobre os alunos para impingir seus dogmas religiosos ou políticos é uma covardia, uma espécie de assédio…
    Vou lhe enviar este meu comentário, na expectativa de me apresentar um resposta convincente. Caso contrário, publicarei também um comentário a respeito dessa afronta ao professor Samuel.
    Rui Martins, jornalista.
    Ao contrário do seu texto, essa decapitação do professor me provocou tristeza e mal estar.
    http://www.observatoriodaimprensa.com.br/etica-jornalistica/jornalista-nao-e-vacinado-contra-ma-noticia/?fbclid=IwAR1njyVMRok6V2clTTEdgoVJpZQoWEMcebICTC_ADVhDks3MBX7hl8uKKAk

  3. Li e reli seu texto pois tinha ficado c0m uma dúvida: o prof. Pinky teria escrito se referindo a algum acontecimento verificado no Brasil ? Minha dúvida foi desfeita por um leitor com um comentário já postado a respeito. Trata-se mesmo do professor Samuel Paty. Neste caso, valho-me do fato de termos quase a mesma idade, para lhe dizer francamente: – você pisou na bola ou mal se informou sobre o que se passou na periferia de Paris, e, neste caso, não deveria ter comentado. O professor Samuel Paty falou em duas aulas, sobre liberdade de expressão, já que fazia parte das suas atribuições. Era professor do curso secundário de história e geografia, cuidava também do ensino “moral e cívco”. No ano passado, já havia promovido um debate na classe com os alunos sobre liberdade de expressão e as caricaturas de Maomé, na revista satírica Charlie Hebdo, sem ter havido quaisquer reações extraescolares. Laicidade é isso, é também debater o impacto que possa haver entre os religosos de uma obra de escultura, de uma peça teatral, de um filme ou de uma música profana que não seja gospel. Como bem afirmou o presidente Macron na rádio Al Jazeera, a França não pretende recuar e continuará defendendo a liberdade de expressão em todos os domínios inclusive nas caricaturas. “C’était au programme pour l’EMC (enseignement moral et civique, ndlr), c’était pour parler de la liberté par rapport à l’attentat de Charlie Hebdo, qu’il montrait ces images, les caricatures”, explique une élève.” publicou um jornal ffancês. Seu texto nada tinha de reprovável, ao contrário, até inserir uma frase como esta, referindo-se à figura do professor: “buscando atualizar-se e não transformando a sala de aula em palanque para pregação política, ou religiosa. Utilizar-se da ascendência que o professor tem sobre os alunos para impingir seus dogmas religiosos ou políticos é uma covardia, uma espécie de assédio.” !!!??? Se esse texto se refere ao que teria ensinado Samuel Paty aos seus alunos, antes de ser decapitado, é uma afronta! Os exemplos citados, logo a seguir, de professores que ensinavam religião ou queriam influir em matéria política nada têm a ver com o professor Samuel. Ele explicava e debatia com os alunos a questão da liberdade de expressão na imprensa. Como bem diz Joma, no primeiro comentário, se alguns pais de alunos achassem incorreto o debate promovido pelo professor, poderiam se queixar à diretora da escola ou mesmo entrar com um processo, mas não decapitar o mestre. Sua referência embora sem citação explícita ao atentado islamita acaba por nos deixar em dúvida quanto ao seu conceito de liberdade de expressão, embora nos deixe claro seu conceito capenga de laicidade, digna da época do Estado Novo quando estudávamos: professor ensina mas não abre o bico. Lamentável! Se esta chamada para o artigo se referir ao professor Samuel, considero-a como um insulto à vítima decapitada. …Utilizar-se da ascendência que o professor tem sobre os alunos para impingir seus dogmas religiosos ou políticos é uma covardia, uma espécie de assédio… Vou lhe enviar este meu comentário, na expectativa de me apresentar um resposta convincente. Caso contrário, publicarei também um comentário a respeito dessa afronta ao professor Samuel. Rui Martins, jornalista. Ao contrário do seu texto, essa decapitação do professor me provocou tristeza e mal estar. http://www.observatoriodaimprensa.com.br/etica-jornalistica/jornalista-nao-e-vacinado-contra-ma-noticia/?fbclid=IwAR1njyVMRok6V2clTTEdgoVJpZQoWEMcebICTC_ADVhDks3MBX7hl8uKKAk

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