ESFERA

Esfera pública colonizada. Por Aylê-Salassié F. Quintão

ESFERA PÚBLICA COLONIZADA

AYLÊ-SALASSIÉ QUINTÃO

… Com relação aos conflitos de classe no Brasil, diz que privilégios, preconceitos e alianças dão visibilidade para um padrão histórico, refletindo apenas discordâncias efêmeras entre políticos, partidos e intelectuais.  A classe média pressionada, de um lado, pela atração do capital que não lhe pertence e sob pressão da pobreza, de onde veio, serve cabisbaixa de ponte para legitimação das fantasmagóricas forças do mercado…

Brasil História: O início da colonização

Escrevera antes um livro intitulado A Tolice da Inteligência Brasileira (2015), mostrando como ela é manipulada. Trata-se do sociólogo Jessé Souza, professor da Universidade UFABC, de São Paulo, e que vem assustando muita gente com seu livro A Elite do Atraso (2017).  Suas reflexões são implacáveis contra alguns autores responsabilizados pela configuração dada à cultura brasileira, ao serem incorporadas por historiadores, economistas, sociólogos, antropólogos e até mesmo educadores para explicar o Brasil para brasileiros e estrangeiros.

A atual geração teve o privilégio de conviver também com Manoel Bonfim (1868-1932), Caio Prado Junior (1907-1990), Otto M. Carpeaux (1900-1978), Darcy Ribeiro, (1922-1977) et alli. Com este último tive contatos no Uruguai, já exilado, escrevendo o Processo Civilizatório, (1968). Sempre houve disponibilidade de algumas dezenas de autores nacionais e estrangeiros no campo da Antropologia, da Sociologia, da Política, da Literatura e da Educação. Minha dissertação de mestrado – Jornalismo Econômico no Brasil como Aparelho ideológico do Estado (1987) – foi baseada no francês Louis Althusser (1918-1990).

 Mas o que assustou mesmo em Souza foi a desqualificação de três leituras básicas da formação dos brasileiros e que marcam ainda hoje o entendimento e o  comportamento dos cidadãos, tanto de direita quanto de esquerda: Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala (1933); Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1936);  Os Donos do Poder (1958), de Raymundo Faoro.

São autores respeitados, com diversas edições até em outros idiomas, adotados por, praticamente, todas as universidades do Brasil e algumas no exterior. Servem à interpretação dominante da realidade no Brasil. Refletem, contudo, claramente, a vitória do liberalismo conservador, levando à colonização, inclusive, do pensamento crítico no Brasil, observa.

O sociólogo teve a oportunidade de desfrutar de um olhar distanciado do País, a partir da Alemanha e dos Estados Unidos, onde foi aluno e professor, e pôde observá-lo de longe. Ameniza as críticas a Gilberto Freyre, a quem atribui a criação da matriz identitária brasileira, mas não perdoa Sérgio Buarque. Considera-o responsável por ter criado, a partir da herança das humilhantes relações sociais no escravagismo, a ideia do tal “homem cordial”. Estaria aí a semente cultural   da sociedade desigual e perversa que se entranhou na alma do brasileiro como uma continuidade da sociabilidade que sucedeu a abolição.

Segundo Souza, caberia ao antropólogo Roberto da Mata arrematar as intenções de Buarque, instituindo a síndrome do “vira lata” – sentimento de inferioridade -, uma distinção social desprezível.  Teriam eles naturalizado esse perfil para o brasileiro, a partir da escravidão. Por isso, a desigualdade constitui-se em traço fundamental da sociabilidade brasileira.

Souza não dá tréguas também  a Faoro por institucionalizar a noção de “patrimonialismo”, vinda lá da colonização ibérica,  e que abriga por aqui o homem corrupto, gerando o “jeitinho brasileiro” , que o teriam ajudado a identificar o que chamou de “os donos do Poder”, vindo desembocar na Lava Jato  e em uma mídia hegemônica que procura dar vida a um aprendizado societário (cultural) simbólico deprimente, pervertido  e subserviente. O atraso do Brasil para Faoro estaria no Estado, e não no mercado, esse ente supostamente invisível, omitido, por meio do qual circulam os interesses privados, confundindo-se com o interesse público.  O Estado é o seu negócio, diz.

 Com relação aos conflitos de classe no Brasil, diz que privilégios, preconceitos e alianças dão visibilidade para um padrão histórico, refletindo apenas discordâncias efêmeras entre políticos, partidos e intelectuais.  A classe média pressionada, de um lado, pela atração do capital que não lhe pertence e sob pressão da pobreza, de onde veio, serve cabisbaixa de ponte para legitimação das fantasmagóricas forças do mercado. Nesse espaço transitam a alternativa dos morenos (mulatos), a quem a mídia acena cinicamente com um charme emancipador, de fato antropofágico e caricaturado.

 Desnorteados historicamente, esses segmentos médios emancipadores comportariam frações distintas de classe:  liberais, protofascistas,  expressivistas revolucionárias, mas domados pelo capital financeiro, e a fração crítica   aflorada da pobreza e da humilhação social. Não se entendem, embora sejam eles quem caracterizam a esfera pública, representada por  sujeitos privados com opinião própria. Por aqui tudo seria, entretanto, mediado pelo mercado oligarquizado, distribuído entre interesses do capital e os atravessadores.

 Colonizada, a classe média funciona como ferramenta, e até como arma, contribuindo para o aprofundamento da demonização do Estado. Essa servidão é, portanto, instrumental. Ela não é parte. Não tem a autonomia, mesmo estando no Poder. Seus esforços são limitados por patamares invisíveis de tolerância da classe dos endinheirados. E, assim, o mercado se apropriaria do que seria a esfera pública – um difuso poder da sociedade e do cidadão.

 É a democracia que a escravidão legou ao País. A classe média é o capataz. Adiciona a noção de meritocracia. No fundo, o brasileiro é comandado por uma hierarquia de valores no dia a dia, que se inicia dentro de casa e se estende por meio da grande mídia – concessão pública -, que lhe traçam disfarçadamente um perfil de vira-latas.

O passado do brasileiro – intocado até hoje, observa Jessé – é o herdado das relações sociais na escravidão: despreza o negro e o pobre e tolera o mulato, submetidos na cotidianidade a um distanciamento covarde e silencioso, que a história vai digerindo no processo de colonização da esfera pública, por meio de falsas noções e a imprecisão de conceitos científicos difundidos na vida social. Ninguém nasce imbecil. É feito idiota. Só a pandemia pode resgatar o brasileiro.

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Aylê-Salassié F. QuintãoJornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília

 

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