Guten Tag, Herr Freud! (Bom dia, Sr. Freud). Por Antonio Silvio Lefèvre

Guten Tag, Herr Freud! (Bom dia, Sr. Freud). Por Antonio Silvio Lefèvre

De como a mãe do Jorge Bodanzky vendia livros de Freud, e para Freud, e acabou ficando amiga dele.

Guten Tag, Herr Freud! (Bom dia, Sr. Freud). Por Antonio Silvio Lefèvre
Estava eu, outro dia, a conversar com meu mais velho (quer dizer, antigo) amigo, o cineasta Jorge Bodanzky, sobre nossas origens familiares e lhe contei que, ao me tornar um livreiro, nos últimos anos, eu havia retomado uma tradição histórica da minha família, pois meu tataravô paterno, Philémon Joseph Lefèvre, tinha sido livreiro em Bruges, na Bélgica, e quando veio para o Brasil, em meados do Século XIX, instalou-se em Salvador (BA), onde abriu sua Livraria Lefèvre, na famosa Ladeira do Quebra-Bunda.  Contei-lhe então que eu estava em busca da imagem de um quadro a óleo, retratando Salvador antiga, e que eu tinha visto há anos em um museu de lá, em que aparecia essa livraria, mas que não me permitiram fotografar. Só que em minha última visita a Salvador, o quadro não estava mais lá.

Pois Jorge, então, me retrucou: “Eu também tenho uma livraria em minhas origens, só que da minha eu tenho uma foto, com minha mãe na porta! E esta livraria, eu te garanto, foi muito mais famosa que a do seu tataravô”. E Jorge rapidamente localizou, em seu preciosos arquivos fotográficos, esta foto de 1928 que ilustra este artigo, em que aparece sua mãe, Rosa Friedmann, então com 20 anos, em frente à vitrine da Livraria Goethe, na Liechstensteiner Strasse nº 16, em Viena, onde trabalhou como vendedora até 1932, quando se casou com Hans Bodanzky, o pai de Jorge, e alguns anos depois, para fugir da guerra que se anunciava, vieram para o Brasil.

“E você sabe quem era o cliente preferido dessa livraria, que passava por ela várias vezes por semana, até porque ficava a uma quadra de distância de sua casa, na Bergasse,19?  Um médico neurologista, que já tinha publicado alguns livros e estava começando a ficar famoso tanto para aqueles que o apreciavam quanto para aqueles que o rejeitavam – um tal de Sigmund Freud!”

Na minha infância e adolescência eu conheci muito de perto a mãe do Jorge, a quem chamávamos de “Dona Rosa”, pois éramos vizinhos na alameda Franca, em São Paulo. Jorge me relatou agora o que lhe contara sua mãe (falecida em 1991) a respeito deste seu primeiro emprego em Viena. Que o dono da Livraria Goethe, Paul Sonnenfeld, era um intelectual judeu muito sintonizado com o que se editava de mais importante, e mesmo de mais polêmico naquela época, e que, por isso, sua livraria era uma espécie de ponto de encontro tanto de leitores cultos, quanto dos próprios escritores contemporâneos.

Da mesma forma como foi depois a Livraria Jaraguá, em São Paulo, cuja história eu relatei neste Chumbo Gordo em artigo biográfico de meu pai.  Sonnenfeld apreciava muito os livros que Freud havia publicado até então. E um dia, a vendedora Rosa lhe sugeriu colocar em destaque, na vitrine, todos os livros de Freud que tinham na livraria. E foi então que Sigmund passou em frente, ficou embevecido e entrou na livraria para lhes agradecer. Paul e Rosa logo se tornaram amigos dele, como já eram de outros escritores famosos que frequentavam a livraria, como Karl Kraus, dramaturgo, jornalista, ensaísta, aforista e poeta austríaco que rejeitava totalmente as ideias de Freud, como muitos outros naqueles tempos. Essas polêmicas, aliás, eram uma atração da Livraria Goethe.

Rosa dedicava-se muito especialmente a Freud que, além de autor de sucesso na livraria, era também grande comprador de livros, para ele mesmo e para sua mulher.  Numa gravação em vídeo, Rosa relatou a Jorge: “Nós também tínhamos uma biblioteca de empréstimo e eu sempre sugeria livros para a esposa de Freud e algumas vezes levava os livros para o apartamento deles na Bergasse. Era no segundo andar, eu subia com os livros e conversávamos.”

Rosa Friedmannn, então já com sobrenome Bodanzky pelo casamento com Hans Bodanzky, veio para o Brasil em 1937 e Sigmund Freud ficou em Viena até 1938, quando refugiou-se na Inglaterra, vindo a falecer um ano depois, em 23 de setembro de 1939, poucos dias depois do início da Segunda Guerra Mundial.  O nazismo o havia feito fugir da Áustria, a tempo, como todos os judeus que puderam e conseguiram. Jorge Bodanzky nasceu quando o seus pais já estavam no Brasil, em 1942. E sua mãe continuou vendendo livros no Brasil, tendo trabalhado nas Livrarias Kosmos e Nobel, em São Paulo.

Essa emocionante história da mãe de Jorge como livreira de Freud “casou” muito com uma experiência que eu mesmo tive em Viena, em 1965, quando lá cheguei acompanhando meu pai, o médico Antonio Branco Lefèvre, num Congresso Mundial de Neurologia. Uma das primeiras coisas que meu pai notou no congresso foi a total falta de menção a Freud.

– “Os médicos daqui esqueceram que Freud era um neurologista, como eu, mas que foi muito além da medicina puramente fisiológica, criando toda uma nova disciplina, a Psicanálise”, comentou então meu pai. Pois, de fato, em nenhuma conferência do congresso se abordava as ligações da neurologia com a psicanálise e muito menos as interações das duas áreas, aquelas que meu pai descreveu, nos anos 1970, com um livro pioneiro sobre uma nova disciplina que então se criava, a Neuropsicologia.

Nas conversas com médicos participantes do Congresso, ficou claro para ele que, por incrível que pudesse parecer, naquela década de 1960, as ideias de Freud ainda eram amplamente rejeitadas pela “ciência”, que as considerava como de outra área, mais “filosófica” e não baseadas na “realidade” pois esta, na visão dominante então, era apenas física e nunca psicológica, ou “abstrata”.

 Sigmund Freud
Sigmund Freud

Mesmo na cidade de Viena propriamente dita meu pai espantou-se então por não acharmos sequer uma rua com o nome de Freud ou pelo menos uma estátua em sua homenagem. E eu mesmo, conversando com jovens que conheci então por lá (inclusive com uma vienense, intérprete do congresso, que conheci lá e com a qual acabei me casando..) entendi que a rejeição a Freud tinha raízes muito mais profundas: por um lado o extremo conservadorismo de grande parte da elite austríaca, que associava Freud a sexo, promiscuidade e até mesmo ao pior de todos os “pecados”, que entendia estar valorizado no “Complexo de Édipo”.

Mas outro motivo de rejeição, que poucos tinham coragem de explicitar na época, era o fato de Freud ser judeu. Afinal a guerra tinha acabado há apenas 20 anos, Viena ainda tinha quarteirões inteiros bombardeados e havia lá muitos nazistas ou ex-nazistas que, no íntimo, eram bastante antissemitas. E é sempre bom lembrar que as obras de Freud foram queimadas pelos nazistas, que decretaram que a psicanálise era uma “ciência judia”.

Apenas em 1971, seis anos depois de nossa visita a Viena, é que foi fundado o Museu Freud, ali mesmo na Bergasse 19, onde morava e trabalhava Freud, pertinho da livraria da mãe do Jorge. Freud passou então a ser reconhecido oficialmente como um “cidadão vienense” e seu museu incluído nos roteiros turísticos de Viena, como opção para os viajantes mais cultos.

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ANTONIO SILVIO LEFÈVRE – é sociólogo (Université de Paris), editor e livreiro. Interpretou Pedrinho na 1ª adaptação do “Sítio do Picapau Amarelo” para a TV, em 1953/54. Veja no Museu da TV.

2 thoughts on “Guten Tag, Herr Freud! (Bom dia, Sr. Freud). Por Antonio Silvio Lefèvre

  1. Belíssima matéria! Enriquecedora! Parabéns! Eu escrevi 1 romance simples que é ambientado na 2a G. Mundial e por isso tive que pesquisar muito. Uma coisa me saltou à vista sobre o Freud. Tem muito judeu e até europeus que ñ o perdoam por ter deixado suas 4 (acho ) p trás em Viena e essas vieram a morrer em campos de extermínio.

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