luz do sol vida

Toda luz que há nesta vida. Por Paulo Renato Coelho Netto

O Sol brilha no outono, os canários estão por aí e a Bernadete ainda há de enxergar toda luz que há nesta vida.

luz vida

Todo dia ela faz tudo sempre igual, conta uma tragédia nova às seis horas da manhã.

Bernadete tem fixação por acidentes, doenças terminais, homicídios, roubos seguidos de morte, incêndios com vítimas fatais, todas as modalidades de atropelamentos, afogamentos, corpos calcinados, brigas entre vizinhos que vão parar no Pronto Socorro, ou no cemitério, crimes passionais, vinganças, soterramentos, enchentes, vendavais, bolos envenenados e estupros.

Para ela, desgraça pouca é bobagem.

Céu claro, pássaros cantando, frescor outonal entrando pelas janelas nas manhãs.

No entanto, nada de bom anima Bernadete contar boas histórias com o mesmo entusiasmo que calamidades.

Ela é a personificação do caiu na boca do povo.

Em homenagem a Pelé, em 1978 Caetano Veloso compôs a canção “Love, Love, Love”.

A letra faz referência à palavra amor (love), repetida pelo jogador após seu último jogo como profissional, no dia 1º de outubro de 1977.

No primeiro verso diz: Eu canto no ritmo, não tenho outro vício | Se o mundo é um lixo, eu não sou.

Profissionais da área de saúde mental são apropriados para diagnosticar se Bernadete padece ou não de algum problema que precisa de cuidados médicos ou psicológicos.

Ela tem CPF, RG e impressões digitais únicas, mas é um ser coletivo. Há tantos iguais.

Existem pessoas que só conseguem ver o lado negativo da vida, o lixo existencial.

O otimista comemora a goiabeira na calçada e se esbalda com as frutas. O pessimista lamenta as goiabas apodrecendo no chão.

A questão é: como manter o otimismo em um país repleto de ladrões que roubam até dinheiro de aposentados?

Como manter a sanidade em meio a tanta violência, corrupção e impunidade?

Um país dividido entre os privilegiados dos palácios e os miseráveis que sustentam as mordomias.

O Sol brilha no outono, os canários estão por aí e a Bernadete ainda há de enxergar toda luz que há nesta vida.

No mais, que a sorte nos proteja.

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paulo rena

Paulo Renato Coelho Netto –  é jornalista, pós-graduado em Marketing. Tem reportagens publicadas nas Revistas Piauí, Época e Veja digital; nos sites UOL/Piauí/Folha de S.Paulo, O GLOBO, CLAUDIA/Abril, Observatório da Imprensa e VICE Brasil. Foi repórter nos jornais Gazeta Mercantil e Diário do Grande ABC. É autor de sete livros, entre os quais biografias e “2020 O Ano Que Não Existiu – A Pandemia de verde e amarelo”. Vive em Campo Grande.

 

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