Saúde reborn. Por Adilson Roberto Gonçalves
…bebês reborn adentram o parlamento no colo de oportunistas que, mais uma vez, ficarão longe de qualquer discussão de saúde pública relacionada à questão…

As doenças da mente são mais difíceis de identificar porque seus sinais e sintomas são, muitas vezes, invisíveis. O paciente não sangra, não incha, não tem alterados os componentes do sangue. Mas dói. E a dor psíquica precisa ser tratada. Convém informar que não tenho nenhuma autoridade para falar do assunto, apenas assisto às dores de pessoas próximas, tentando entender o melhor que pode ser feito para aliviá-las.
A proliferação de pessoas – notadamente mulheres – que passam a adotar bonecos feitos com altíssima definição de detalhes (chamados de bebês reborn) é questão que vai além de um modismo. Uma pessoa pode fazer a opção de não ter filhos, pode se sentir melhor cuidando de animais ou mesmo ter uma vida totalmente solitária. Quando essas situações, digamos, menos sociais, são escolhas distantes de traumas ou de perdas, não há o que se discutir. Mas se são substituições por frustrações, a saúde mental pode estar comprometida. A sensibilidade com as relações envolvidas na infância e aquelas relacionadas à maternidade fica mais explícita com o advento das redes sociais, nas quais tudo é mostrado e de forma instantânea. Uma criança assassinada, abandonada ou infeliz é símbolo de desumanidade de todos nós, independente de quem seja ou onde esteja.
Assim, de um lado, bebês reborn adentram o parlamento no colo de oportunistas que, mais uma vez, ficarão longe de qualquer discussão de saúde pública relacionada à questão. Mas, de outro, bebês “redead” pipocam em Gaza sem que o mundo faça algo para acabar com esse geno…, quer dizer, com essa matança desenfreada. Sim, estamos cada vez mais loucos e cada vez mais artificiais, longe, muito longe de uma humanidade sustentável.
____________________________
– Adilson Roberto Gonçalves – pesquisador da Universidade Estadual Paulista, Unesp, membro de várias instituições culturais do interior paulista. Vive em Campinas.
