BOTEQUIM

Frases de Botequim. Por Lula Vieira

… resolvi me especializar em frases ouvidas em botequins, estes templos da democratização da sabedoria. Andei por muito tempo com uma cadernetinha e, cada vez que algum companheiro de mesa ou garçom me brinda com uma frase digna de registro, tiro do bolso o canhenho e registro…

BOTEQUIM

Peguei a mania do grande Duailibi, recentemente falecido,  de colecionar frases. Só que para não fazer concorrência direta, da qual eu seria evidentemente prejudicado diante da excelência de meu rival, resolvi me especializar em frases ouvidas em botequins, estes templos da democratização da sabedoria.

Andei por muito tempo com uma cadernetinha e, cada vez que algum companheiro de mesa ou garçom me brinda com uma frase digna de registro, tiro do bolso o canhenho e registro. Reparem aí no uso magistral da palavra canhenho, que até mesmo o corretor ortográfico do Word não conhece e sublinha em vermelho, como se estivesse errado. Canhenho, Microsoft iletrado, é para Aurélios e Houaiss, não para teu bico funcional.

Voltando à cadernetinha. O grande problema é que eu só conseguia registrar as primeiras frases. Ao passar do tempo, devido ao consumo botequinal, a letra vai ficando indecifrável. Acho que as melhores sentenças estão definitivamente perdidas. Ou, então, eu não sei dar valor ao profundo pensamento que registrei e que diz  “mercontrtyus gostumnws unmosmgh pultuz”.  Sem contar que perdi umas vinte cadernetas. Mas, ainda assim, meu acervo está ficando bastante bom. O que dá para imaginar é o quanto seria maravilhoso se eu tivesse realmente guardado tudo o que ouvi nestes tempos todos de boa conversa. Aqui está uma amostra da minha coleção, restrita às frases sobre comida e bebida.

Abro com uma grossíssima, de um amigo meu, respondendo porque não comeria o Carpaccio sugerido pelo maitre: “meu amigo, carne crua só gemendo!” Ganhou uma vaia e dois dias de gelo da mulher. Uma que um gaúcho me contou, mostrando que existe uma profunda poesia da propalada grossura gaúcha,  é  a de um garçom da cidade de Rio Grande que anotou o pedido dos homens na mesa de quatro casais e depois se dirigiu às mulheres: “e as guria, vão ficar de bico seco?” Perfeito como marketing.

Aliás, outra pérola, um pouco menos delicada, é a resposta do gauchão acompanhado de três moças no restaurante do posto de gasolina, ao ser perguntado se queria uma Coca-Cola Família: “Que é isso, tchê! É tudo puta!”

Durante muito tempo fui atendido por um garçom espanhol, o Manolo (como de praxe), que se tornou célebre pela sua absoluta falta de paciência. Uma vez, ao ser perguntado por uma senhora sobre o que seria um prato chamado de “criadillas”, muito conhecido no interior da Mancha, tentou dar várias explicações com parábolas e circunlóquios. Ao não conseguir se explicar, apontou o próprio saco e disse bem alto: “Señora, criadilla és esto!”.

Outro amigo, depois de contar ao garçom que estava morto de fome e ter recebido a sugestão de comer uma “saladinha”, respondeu quase bravo: “Meu filho, salada é comida de comida. Eu quero carne!” Descobri em Volta Redonda uma loja diminuta que faz uma das melhores empadas que comi na vida, a Empa Dona, digna de rivalizar com o Pão e Pão de Nogueira ou o Moinho Verde de Angra dos Reis, talvez até o Frangó em São Paulo. São uns dez tipos de empadas, mantidas num forninho a lenha. Uma melhor que a outra. Cheio de curiosidade perguntei ao rapaz do balcão como ele sabia diferenciar os diversos sabores e aprendi: “muito simples: camarão tem um pontinho, camarão com Catupiry são dois “cês”, calabresa são dois pauzinhos, palmito, um pauzinho, tudo lógico”. Daí eu intriguei com um “s” sobre algumas delas. E ele me explicou, com ar de enfado diante de minha ignorância: “Muito simples: ‘ésse’ de cebola!”

Outra inesquecível não é bem sobre comida, mas no fundo é, além do que, ouvi num restaurante. Uma senhora contou numa mesa ao lado da minha que a irmã dela se separou do marido porque flagrou o cidadão indo durante a madrugada para o quarto da empregada. Segundo a narrativa daquela senhora, o malandro, ao ser abordado pela mulher, ainda tentou fingir que estava tendo um ataque de sonambulismo, embora não tivesse conseguido se safar. A tal irmã da senhora teria mais tarde confessado à família: “Falei para o desgraçado acabar com a palhaçada pois eu nunca tinha ouvido falar de sonâmbulo de pau duro.”

Outra resposta genial é a do garçom de um dos botecos que a gente costuma frequentar às sextas-feiras que por ter boa comida fica lotado, além de ser barulhento, e muitas vezes quente demais. Outro dia alguém da mesa reclamou dizendo que aquilo estava um verdadeiro inferno. E o garçom respondeu,  sem pensar um único segundo: “Isso que você chama de inferno eu chamo de lar!”

Dizem que uma amiga minha respondeu à pergunta se ela gostava de frutos do mar com esta pérola: “Tirando homem rã, salva-vidas e mergulhador, não!”

Para terminar, tem o conselho do Manolo no horário de almoço de segunda-feira depois do Flamengo ter perdido: “Pede coisa fácil que o mau humor na cozinha está terrível!”

É por isso que adoro botequins. É lá que eu aprendo muito sobre a vida.


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos no Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine a nossa newsletter