Herança do desespero. Por Meraldo Zisman
Estudo revela que filhos de pais com dependência, alcoolismo ou histórico de suicídio têm risco muito maior de automutilação e tentativas de tirar a própria vida.
Setembro Amarelo nos lembra que a dor não termina em quem a sente. Quando um pai ou uma mãe adoece, a vida dos filhos também fica em risco. Falar sobre isso é abrir espaço para o cuidado, para a escuta e para a esperança.

Há dores que não conhecem fronteiras. Elas transbordam de um corpo para outro, atravessam paredes, silenciam risos e alcançam quem menos deveria carregá-las: os filhos. Um estudo recente revelou, com a frieza de números que cortam como lâminas, que crianças e adolescentes que crescem em lares marcados pela dependência, pelo alcoolismo ou pelas tentativas de suicídio herdam mais que cicatrizes invisíveis: herdam o risco real de repetir a tragédia. Quando os dois pais estão mergulhados nesse desespero, o perigo quase dobra. E, entre todos, as meninas mais novas despontam como as mais frágeis nessa travessia.
Mas não falamos apenas de estatísticas. Falamos de rostos que se apagam cedo demais, de infâncias marcadas por instabilidade, de silêncios que ecoam mais do que qualquer palavra. A herança, nesses casos, não é feita de bens nem de memórias felizes. É um legado de medo, insegurança e vazio. O sofrimento dos pais, quando não tratado, se converte em sombra sobre os filhos, um fardo que eles nunca escolheram carregar. E, no entanto, existe sempre a chance de outro caminho. Quando um pai ou uma mãe recebe ajuda, a família inteira respira. Cuidar dos adultos é também proteger as crianças. Esse gesto simples, mas profundo, tem o poder de quebrar o ciclo do desespero e abrir espaço para a vida. É preciso que escolas, profissionais de saúde, vizinhos e comunidades estejam atentos: quando um adulto sofre, a criança também pede socorro, ainda que em silêncio.
Dentro de casa são os gestos cotidianos que podem se tornar antídotos contra a desesperança. Uma mesa partilhada, uma conversa sem pressa, um abraço demorado, o olhar que diz “você não está sozinho”. São nesses detalhes aparentemente pequenos que a vida reencontra sentido. E precisamos repetir sempre: falar sobre suicídio não desperta a vontade de morrer, abre caminhos para continuar vivendo. O silêncio, sim, é que mata.
Setembro Amarelo não é apenas um mês de campanhas, mas um chamado à humanidade. Um lembrete de que o desespero pode ser interrompido, e a herança pode ser transformada. Cada palavra de escuta, cada gesto de cuidado, cada mão estendida é uma semente de esperança. Quando um adulto encontra apoio, uma criança ganha futuro. E quando uma família é amparada, o destino deixa de ser repetição de dor e se abre para a possibilidade da vida. Se você ou alguém próximo atravessa esse silêncio pesado, não caminhe sozinho. O CVV – 188 atende gratuitamente, todos os dias, a qualquer hora. Em cvv.org.br, há acolhimento humano e discreto. Em situações de emergência, ligue 190 ou procure o pronto socorro mais próximo.
Falar salva. Escutar também.
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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu
