MANIAS

IA

Cada maluco com suas manias. Tenho as minhas, você deve ter outras que talvez até nem reconheça, não ao menos publicamente. Estão em nosso cotidiano, e de algumas não nos separamos nunca.

MANIAS
 (IA)

Já vi manias darem, sim, contudo, em separação até de casais. Por causa delas, as manias, arrumamos brigas, fechamos a cara, fazemos birra até que possamos ser atendidos, muitas vezes, maioria, bobagens, como ser o primeiro a entrar numa festa para ver todos chegando, ou nunca ser o primeiro, para poder causar ao chegar. Lado da cama. Lugar na mesa. Hora disto ou daquilo. Ciúmes das coisas mais bobas. Superstições incrustadas, do isso pode dar azar, ou crença no que acredita que trará sorte. Não deixar sapato virado, nem meias ao contrário. Manias às vezes viram hábitos, coisas de foro tão íntimo que imperceptíveis porque as tornamos naturais. E ai de quem quiser questioná-las. Que nem sejam apontadas, melhor. Um conselho que pode contribuir para a paz no mundo. Mania é mania, gosto é gosto. Cada um com os seus, liberdade para as borboletas, que inclusive acho que andam meio sumidas da natureza.

Há uns três anos encafifei com uma coxinha e aquele seu formato que nos obriga sempre a tomar a séria decisão de por onde começar, pela parte gordinha até a base, ou pela pontinha até chegar à área mais rechonchuda, recheada. Até escrevi sobre isso, perguntando a vocês, queridos leitores, por onde começavam a mordiscar. Começos, a ordem e a forma podem até ser manias. Como boa geminiana, ao menos neste caso da coxinha sou imparcial – ora mordo pela pontinha, ora pela parte de cima.

Pensando nesses começos todos refleti sobre a quantidade de decisões que diariamente tomamos. Do acordar ao fim do dia. Você acorda, levanta e já sai andando ou se estica todo antes de largar o quentinho da cama? No banheiro, olha a cara no espelho ou evita para não tomar choque de realidade? Escolhe a roupa de sair no dia anterior ou na hora? Começa por onde? Tem uma ordem que cumpre rigorosamente? Parte de baixo, parte de cima? Combina tudo ou escolhe uma peça e as outras circulam ao redor, como satélites? Prova um monte ou é uma daquelas pessoas decididas (e um pouco irritantes, ao meu ver) que estão sempre de alguma forma iguais, ou que mantêm os guarda-roupas impecáveis, cor com cor, coisa com coisa, tipo aquele inesquecível closet do filme “As Patricinhas de Beverly Hills” (1995)?

Escrever também é coisa que precisa sempre de começo, além da vontade. De alguma provocação. Imaginação. Crônicas dependem também da disposição de se expor pessoalmente, contando casos, visões, registros. Escolher tema é tarefa árdua. Ontem mesmo, no lançamento de “Casos e Causos, A trajetória de um Defensor”, livro do grande amigo e respeitado advogado criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, prefaciado pelo absoluto e genial outro amigo e escritor Ignácio de Loyola Brandão, não resisti em lhe perguntar como fazia, onde buscava sua inspiração para as crônicas perfeitas. A resposta, com aquele sorriso que lhe é peculiar, foi rápida: “Basta começar”.

Foi o que fiz. Taí.

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marli– MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital.  marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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2 thoughts on “Sobre começos e as pequenas manias. Por Marli Gonçalves

  1. Muito bom, Marli . Lembrei do meu médico que sugeria instituir um “dia do contra”, no qual você se obrigava a fazer tudo diferente. Se você costumava começar a ensaboar o rosto no banho, tinha de começar lavando o pé. Se você girava a maçaneta com a mão esquerda, tinha de fazer com a esquerda, e por aí vai. Recomendo a prática, ajuda muito a questionar as próprias manias e não ficar “quadrada”.

  2. Muito bom, Marli . Lembrei do meu médico que sugeria instituir um “dia do contra”, no qual você se obrigava a fazer tudo diferente. Se você costumava começar a ensaboar o rosto no banho, tinha de começar lavando o pé. Se você girava a maçaneta com a mão esquerda, tinha de fazer com a direita, e por aí vai. Recomendo a prática, ajuda muito a questionar as próprias manias e não ficar “quadrada”.

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