Um quarto no casarão. Por Antonio Contente
Na primeira noite que passou no quarto nosso visitante foi acometido de insônia medonha. Mesmo acossado pelo frio siberiano que fazia, resolveu dar uma olhada nas lombadas dos livros na estante…

Todos nós somos possuidores de certo senso investigativo. Adormecido, ele às vezes emerge arrancado das nossas entranhas cerebrais por vários motivos. Um deles pode ocorrer durante a leitura de empolgante romance policial. Um belo Dashiell Hamett eventualmente nos transforma, de repente, num Sam Spade. Foi isso que aconteceu com um amigo convidado por outro para visitar velha mansão, totalmente recuperada, erguida no flanco de viçoso canavial na região de Piracicaba. O personagem que me contou a história tornou-se, subitamente, arguto investigador.
Era Inverno quando o convidado chegou à próspera fazenda. O anfitrião, ao levá-lo para o quarto que ocuparia, detalhou que a mansão fora totalmente restaurada com as mesmas características que possuía no século XIX. Todos os móveis eram originais.
— Naquelas estantes estão os livros da minha avó do mesmo jeito que ela os deixou. Viúva desde os 35 anos lia muito. Lindíssima, administrou também belamente o espólio do marido morto ao cair dum cavalo. Com três filhos, não casou mais.
Na primeira noite que passou no quarto nosso visitante foi acometido de insônia medonha. Mesmo acossado pelo frio siberiano que fazia, resolveu dar uma olhada nas lombadas dos livros na estante. Súbito, viu um título que chamou sua atenção pela encadernação. Era a “Divina Comédia”, de Dante. Pegou a brochura com capa de couro e letras douradas, sentou na mesinha de mogno trabalhado e começou a folhear. Súbito, entre as páginas, acha um amarelecido envelope lacrado. Chegou a ter dúvidas se deveria abrir ou não. Abriu.
Desdobrou cuidadosamente a mensagem escrita com caligrafia impecável. Leu: “Minha eternamente amada Jeriane: aproveitando momento de descuido das pessoas da casa, entrei no seu quarto para depositar este bilhete entre as páginas de um livro que você gosta muito. Assim, achará logo o que tenho a lhe dizer: estou apaixonadíssimo e, como nosso amor é impossível, vou me matar. Esperarei por algum sinal que me dê esperança. Se não vier, acabarei com esta vida que, sem você, é inútil. Joselito”.
Ao terminar de ler as palavras que a destinatária nunca achou, as mãos do hóspede tremiam. Pois, num jorro incontrolável, várias perguntas assaltaram sua mente. Teria a mensagem sido escrita quando Jeriane ainda era solteira ou após ficar viúva? Quem poderia ser Joselito, o autor do bilhete? Matara-se ele, de fato, por amor? O homem se viu tomado por incontrolável vontade de investigar.
No café da manhã, diante do anfitrião, o fulano mal continha a inquietude. Tentando pegar um gancho para encaminhar a conversa no rumo desejado, perguntou ao dono da mansão como se chamava sua avó.
— Jeriane — foi a resposta.
— Por que não Ariane?
— É que meu bisavô era Jessé, e minha bisavó sim, Ariane. Juntaram as sílabas, deu Jeriane.
Bom, na realidade aquilo era quase nada para quem pretendia uma grande investigação. Pergunta, a mastigar uma torrada:
— E seu avô que morreu tão novo, como era o nome dele?
— Geraldo.
Pronto, ali estava mais um nó a ser desatado. Até porque com estas ralas informações dava para concluir que o pobre Joselito, de fato, deveria ter cometido o tresloucado gesto. Mas teria? E quem era ele?
Todas as noites, ao se recolher, o fulano não resistia: pegava o volume da “Divina Comédia”. Abria a mensagem manuscrita e lia, e relia, e relia.
Três dias depois de intenso suspense o investigador improvisado conseguiu, finalmente, desvendar o mistério, mas por absoluto acaso. É que após telefonema recebido, precisaria consultar um advogado. Recomendado pelo anfitrião foi a escritório em Piracicaba. Bem atendido por um senhor grisalho, comentou, após a consulta:
— A casa do seu cliente que me mandou aqui é muito bonita. Nunca vi fazenda igual.
— Ah, sim, e o meu avô trabalhou lá; foi contador do dono.
— Que curioso. Como era o nome dele?
— Na verdade era José. Mas só o chamavam de Joselito.
Contendo a própria perplexidade, o camarada ainda conseguiu perguntar:
— E até quando ele ficou lá?
— Nem sei direito. Montou escritório e família aqui. Teve 15 filhos em três casamentos. Morreu com 93 anos.
No regresso à fazenda, o hóspede sentia-se leve; felicíssimo pelo suicídio que não houve.
Ao voltar para Campinas levou o bilhete, devidamente picado em pedacinhos mínimos. Que soltou aos ventos da Rodovia dos Bandeirantes na azul e gelada manhã.
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
