infância

A infância em tempos de competição. Por Meraldo Zisman

Na vontade de oferecer um futuro melhor aos filhos, muitos pais acabam esquecendo que eles também precisam viver plenamente o presente. A infância, cada vez mais, parece submetida à mesma lógica de competição que domina o mundo adulto. Desde cedo, as crianças são incentivadas a desenvolver habilidades, ampliar conhecimentos e alcançar resultados.

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Na vontade de oferecer um futuro melhor aos filhos, muitos pais acabam esquecendo que eles também precisam viver plenamente o presente. A infância, cada vez mais, parece submetida à mesma lógica de competição que domina o mundo adulto. Desde cedo, as crianças são incentivadas a desenvolver habilidades, ampliar conhecimentos e alcançar resultados. Mas essa pressão não se manifesta da mesma maneira em todas as famílias. Em algumas casas, a agenda infantil é preenchida por aulas de inglês, natação, música e atividades extracurriculares. Em outras, a preocupação é garantir uma boa escola, um computador para estudar ou condições para que os filhos não precisem abandonar os estudos. Há pais que temem que seus filhos não ingressem nas melhores universidades; outros desejam simplesmente que tenham oportunidades que lhes foram negadas. As condições são diferentes, mas existe um sentimento que aproxima muitas dessas famílias: o desejo de proporcionar aos filhos uma vida melhor.

Essa preocupação, embora legítima, pode assumir formas que merecem reflexão. Nas famílias com maior poder aquisitivo, a competição aparece, muitas vezes, na agenda excessiva, na busca por cursos e no acompanhamento permanente do desempenho. Uma nota abaixo da média pode provocar ansiedade, enquanto a comparação com colegas se transforma em referência para avaliar o desenvolvimento da criança. Nas famílias de renda mais baixa, a pressão pode estar na necessidade de estudar, ajudar em casa, contribuir com pequenas responsabilidades ou aproveitar cada oportunidade oferecida. Há crianças que, depois da escola, precisam esperar os pais voltarem do trabalho; outras passam parte do dia com avós ou irmãos mais velhos. Algumas têm acesso a atividades variadas, enquanto outras encontram no quintal, na rua ou em uma brincadeira improvisada suas principais experiências de lazer. São infâncias diferentes, marcadas por possibilidades e dificuldades próprias. Nenhuma delas, porém, deveria ser privada do direito de brincar, descobrir, imaginar e crescer com dignidade.

O problema começa quando as expectativas dos adultos ocupam todo o espaço da experiência infantil. Isso acontece quando uma criança é cobrada por resultados que ainda não consegue alcançar, quando seu desempenho é comparado ao de outras ou quando cada momento livre precisa ser transformado em uma oportunidade de aprendizagem. Também acontece quando, por necessidade, os pais precisam passar longas horas trabalhando e acabam tendo pouco tempo para acompanhar a rotina dos filhos. Não se trata de culpabilizar essas famílias, mas de reconhecer que a infância precisa de atenção não apenas individual, mas também social. Brincar, conversar, ouvir uma história, dividir uma refeição ou receber um abraço são experiências fundamentais e não dependem de cursos caros ou brinquedos sofisticados. Dependem, sobretudo, de afeto, presença e condições mínimas para que a criança possa viver sua infância.

Filhos não são projetos de realização dos pais. São pessoas em formação, com ritmos, desejos e caminhos próprios. Educar exige orientação, limites e estímulos, mas também confiança e liberdade.

É compreender que uma criança não precisa ser a melhor da turma, dominar vários idiomas ou conquistar antecipadamente o que a vida adulta exige. Precisa ter espaço para errar, experimentar, fazer perguntas e descobrir aquilo de que gosta. O verdadeiro sucesso da educação não está em antecipar conquistas, acumular certificados ou preparar crianças para vencer todas as competições. Está em formar pessoas autônomas, s eguras e capazes de construir seus próprios caminhos.

Talvez seja hora de trocar um pouco da pressa pela presença e da comparação pela compreensão. Cada família tem sua história, suas limitações e seus sonhos. Mas todas deveriam reconhecer que a infância não é uma etapa descartável, nem uma simples preparação para o futuro. O amanhã certamente chegará. Até lá, que as crianças possam brincar, aprender, sonhar e, sobretudo, ser crianças.

Afinal, nenhuma conquista futura será capaz de devolver o tempo que deixamos de viver com elas hoje.

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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

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