O náufrago. Por Antonio Contente
…O náufrago, segundo a narrativa, tinha todo o aspecto de um náufrago. Desses, quero dizer, que a gente vê em filmes americanos ou histórias em quadrinhos. Barba e cabelo imensos, roupa em frangalhos, lábios cortados pela violência do sal, pálpebras derrubadas pela fome e sede…
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Numa hora de prosa vespertina em Salinópolis, litoral atlântico do Pará, na última vez em que estive lá, um antigo morador me contou a história do náufrago. Devo, aliás, dizer que isso sucedeu porque forcei a barra. Justamente ao comentar que, mesmo sendo uma cidadezinha pacata fora dos meses de férias, por ali, de vez em quando, aconteciam coisas interessantes.
— Afinal – justifiquei – sou um jornalista que, mesmo aposentado, ainda não perdeu o vício de escrever…
Nesse exato momento o veterano salinense observou que casos realmente ricos sucederam nos velhos tempos.
— Quando este lugar devia ser pacato ao dobro – suspirei.
— Exatamente por isso – ele confirmou o aparente paradoxo.
Coçou o queixo, me fitou, para então lançar a pergunta, como um dardo:
— Nunca te contaram a história do homem que apareceu na praia do Maçarico, ali pelo começo dos anos 50?
Sacudi um não com a cabeça; e, então, ouvi.
Sucedeu no mês de janeiro, inverno, a estação das chuvas abundantes, com céu quase sempre sem nenhuma brecha a permitir o azul. Num certo alvorecer o tempo, que já era ruim, foi tomado por total e irremediável tempestade. Que, como muitas outras, começou de manso, apenas balançando as palmas dos coqueiros. Só quem percebe estas ventanias bem antes que cheguem, são os pássaros. No instante em que calam e param de voar, é que a coisa será feia. De fato na tal manhã o pau, como se falava então, cantou.
Segundo o narrador, o autêntico furacão arrancou árvores enormes. Mais do que isso: de repente uma casa, uma inteira casa de madeira passou voando pelo espaço, com as tábuas se desfazendo como se fossem palitos. Súbito, a ventania cessa. O mar, antes ouriçado por ondas imensas, fica calmo.
Passava do meio-dia e um pescador, que morava nas imediações, foi o primeiro a ver.
— Ver o que? – Pergunto.
— O corpo.
— E onde estava?
— Na areia. Ainda agarrado a uma espécie de resto de jangada no qual se manteve boiando.
O náufrago, segundo a narrativa, tinha todo o aspecto de um náufrago. Desses, quero dizer, que a gente vê em filmes americanos ou histórias em quadrinhos. Barba e cabelo imensos, roupa em frangalhos, lábios cortados pela violência do sal, pálpebras derrubadas pela fome e sede. Os pescadores então o carregaram com cuidado para a barraca de um deles, onde permaneceu algum tempo sem sentidos. Depois, ao acordar, revelou o acachapante detalhe: murmurava titubeantes palavras numa língua que ninguém, absolutamente ninguém , entendia.
Pois muito bem, como não havia Posto de Saúde disponível, como hoje que há até hospital, o camarada recebeu ali mesmo os primeiros socorros aplicados pelo pescador que o achou e outros que chegaram. Enfiado no fundo de uma rede conseguiu tomar água, engolir algumas colheradas de caldo de peixe para, em seguida, cair em sono profundo. Durante nada menos de três dias e três noites assim permaneceu, quieto, sem se se mexer, porém com a respiração firme, cadenciada.
Adiante, quando finalmente acordou, é que deu o grande susto nos donos da barraca. Ergueu-se e, abrindo os braços, perguntou algo. Só que ninguém conseguiu entender. Porém ele insiste, com uma verdadeira enxurrada de palavras. Os pescadores se entreolhavam, apavorados.
Em coisa de meia hora, a notícia se espalhou pela cidadezinha. O náufrago, o louro homem barbudo que surgira quase morto na praia, após a tempestade, falava uma língua que nenhum vivente compreendia.
Até que, em certo instante, alguém lembrou o dono do armazém. E lembrou por que? Simplesmente porque ele entendia línguas estrangeiras. Morara em Belém e, durante largo tempo, fora tripulante de navios que percorriam os sete mares. Depois enjoou da vida embarcada, resolveu isolar-se do mundo, e foi dar com os costados em Salinas, onde se tornou comerciante. Todavia, o que todo mundo achava notável, é que ele entendia línguas estrangeiras, indecifráveis aos locais.
Para resumir a história, sucedeu o encontro entre o provável poliglota e o desconhecido. Primeiro, se entreolharam. Em seguida, ante plateia numerosa, soltaram frases curtas. Por fim, se abrem em sorrisos e gestos, a conversar num idioma que deixou a plateia embevecida.
— E que língua era? – Perguntei ao bom homem que me contava a história.
— Inglês. O náufrago era marujo irlandês de um barco que ia em direção ao Caribe e naufragou. Fora o único a se salvar.
— Bom – dou um suspiro – essa é, realmente, uma história interessante. Mas…
— Mas o que? – O outro se surpreende ante a minha provável ressalva.
— Sabe?… – Encolho os ombros – É que, em geral, histórias como essas, de náufragos, não são de todo incomuns.
— Sei. Só que o tal irlandês, um mês após ficar hospedado na casa do dono do armazém, com quem passava os dias papeando e jogando xadrez, simplesmente sumiu.
— Sumiu? E daí? – Coço a ponta do nariz.
— E daí – ele termina – que ao sumir levou junto a esposa do homem, morena nativa belíssima, um verdadeiro avião. E que não falava uma palavra além do seu tosco português…
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ANTONIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
