mandato Lula

Cenário pós eleitoral dá mostras de insustentabilidade

… tendemos a ter o Lula exercendo um quarto mandato presidencial, o último. Mas, seu governo a partir de 2027 será um mistério…

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Antes, nunca se vira algo tão confuso na política brasileira como as eleições de outubro deste ano. E, se acertarmos que não há manipulação de resultados nas pesquisas eleitorais, Lula já estaria eleito para um quarto mandato de Presidente da República do Brasil, até 2031. Seu grupo conseguiu desestabilizar a união dos partidos de oposição, ao se convencer de que a maioria alimenta expectativas fisiológicas de forjar patrimônio e ganhar prestígio pessoal nas comunidades originárias.

Pesam a favor de Lula o fato de sua candidatura ser alavancada coerentemente, por um único Partido (PT), desde que foi eleito, em 2022, para um terceiro mandato. Tem a vantagem ainda de estar no exercício pleno do Governo, deter a chave do Tesouro, o controle do Orçamento, das verbas das emendas parlamentares e, nesses três mandatos, aparelhou o Judiciário com seus correligionários e amigos pessoais. Confessa, sem constrangimento, ter cometido algum crime eleitoral. A Justiça não viu nenhum.  Além disso, deve subir a rampa do Planalto sem a inconveniente presença histórica do PMDB, engolido, digerido e definitivamente devorado.

A oposição tende a não ter sucesso na competição eleitoral na disputa que se estende por mais cinquenta dias. Até 3 de outubro. O próprio ” bolsonarismo”, o contra polo do “lulismo”, tem dado a sua contribuição para fortalecer a candidatura à reeleição do atual Presidente. Para começar, ele não existe para a maioria dos eleitores. Jair Bolsonaro era no Congresso, enquanto deputado, um representante do “Baixo Clero“, sempre intempestivo e inconsequente. Está na prisão. Não parece ser pelo fato, aparente, de ter tentado um “golpe de Estado”. Seus arroubos podem até dar essa ideia. Na realidade acomodou-se narcisisticamente na cama arrumada. Ajustou-se à imagem que configuraram para ele. Emponderaram-no como um referencial situado no polo contrário. Convencido do seu carisma, para além do partido, errou, entretanto, ao indicar seu filho, Flávio Bolsonaro, para competir à sucessão de Lula. Tarcísio de Freitas tinha melhor condição de enfrentar a campanha petista, articulada há mais de quatro anos, e sustentada por enormes gastos públicos manipulados, de maneira relativamente inteligente, pelo grupo no poder.

Fora dessa falsa polarização, há sim, candidatos na oposição com potencial para exercer a governança – Ronaldo Caiado, Romeu Zema que, embora defendendo posições, aparentemente, similares às de Bolsonaro, fragmentaram-se impacientes entre si. Até nisso os petistas acertaram, com alguns escorregões do próprio Lula em suas falas inusitadas, de senadores como Lindbergh Farias, que aprendeu a forjar histórias; do líder do Senado, Jacques Wagner; e até no Judiciário, onde “ministros aliados” exageram na festa hermenêutica e que, sem qualquer pudor ultrapassam, há anos, os limites acordados dos tetos salariais no serviço público, e ainda adicionam sistematicamente “penduricalhos” às suas vantagens pecuniárias. A Receita, o Tribunal de Contas, o Tesouro assiste, silenciosos. Todos parecem adormecer, sem remorsos, com as fantasias propiciadas por esses privilégios anticonstitucionais, que tem outros vieses no Legislativo e no Executivo.

Como esse movimento familiar adesista e ridículo a Donald Trump, os “bolsonaristas” ajudaram muito a campanha de Lula. Permitiu que fosse ressuscitada uma velha ideia da luta revolucionária pela soberania, contra o imperialismo. Isso é tão velho! Mas está rendendo dividendos eleitorais para Lula.

Resultado: tendemos a ter o Lula exercendo um quarto mandato presidencial, o último. Mas, seu governo a partir de 2027 será um mistério… Exagerou na aproximação política com a China, a Rússia, Irã, Cuba, Venezuela de Chavez e Maduro, e com a Nicarágua (cujo presidente acaba de suprimir as eleições civis) em detrimento às relações históricas com os Estados Unidos, a Europa e até com vizinhos na América Latina. Internamente, vem fazendo uma previsão otimista para a governabilidade a partir de 2027 no campo da economia: Crescimento do PIB em 2,56%. Inflação medida pelo IPCA, estimada em 3,04%. Meta de superávit primário fixada em 0,5% do PIB. Projeção do salário mínimo em torno de R$ 1.717 (sujeito a ajustes pelo INPC). Enche o peito para dizer que o Brasil é a nona economia do mundo (11ª: PIB de R$12,7 trilhões = US$ 3,2 trilhões) e salienta ser o Brasil um “um país poderoso”; alardeia que vai ampliar o arsenal militar a partir de 2027, com a expansão das forças armadas e a introdução de novos equipamentos bélicos, dotados de tecnologias de ponta. Segundo ele o Brasil não fazer guerra com ninguém, mas precisa estar preparado para se defender.

 Isso tudo reflete um otimismo com vitória em outubro. Se vencer as eleições terá, entretanto, de desmontar armadilhas que ele mesmo, enquanto Governo, está criando, ao gerar hipóteses que poderão não se confirmar. Precavidamente, ele já acusa o seu Banco Central de não conter as taxas de juros, e difunde um discurso atribuindo ao empresariado concentrado na avenida Faria Lima, em São Paulo, de responsável pelas coisas que não dão certo no Brasil. Volta-se ainda contra o parlamento, acusando-o de pretender gerir o Orçamento e vê sempre uma certa instabilidade nas Forças Armadas.

Enquanto isso os políticos fecham os olhos para a execução orçamentária, aprovando programas e projetos de efeitos retóricos; os economistas de plantão no mercado evitam dar seu aval à política fiscal, cujo ajuste apregoado carece de consistência e credibilidade. Prevê-se que o novo Governo vai herdar “O pior cenário para a dívida pública”: 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB), ou seja “uma trajetória explosiva”, o que, de olho nas eleições, vem sendo ignorado pelo Executivo. Os gastos primários crescem para além capacidade de captação de recursos.

 Provavelmente, não vai adiantar acusar a Faria Lima. Terá de desmontar as arapucas criadas. Os “pacotes de bondades” não isentam o empresariado da supressão ou redução dos incentivos e isenções tributárias. Os programas sociais podem ser surpreendidos com novas regras. Os ganhos financeiros estão na mira de uma suposta nova política fiscal, mais rigorosa. À “boca pequena”, fala-se até em “confisco de poupança”, segundo deixou escapar o economista petista, José Sergio Gabrielli, que presidiu a Petrobras entre julho de 2005 e fevereiro de 2012.

A experiência, feita no governo Collor (1990-1992), causou um enorme trauma na população brasileira. Nada assusta. O ar está poluído de narrativas lúdicas. Não dá para distinguir o falso do verdadeiro. Resta ao cidadão exercer o seu direito de votar.

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Aylê-Salassié F. Quintão –  Consultor de projetos sociais | Consultor da Catalytica Empreendimentos e Inovações Sociais. Jornalista, professor, doutor em História Cultural, ex-guarda florestal do Parque Nacional de Brasília. Vive em Brasília. Autor de  “AMERICANIDADE”, “Pinguela: a maldição do Vice”. Brasília: Otimismo, 2018
Autor, entre outros, de Lanternas Flutuantes:
Português –   LANTERNA FLUTUANTES, habitando poeticamente o mundo
Alemão – Schwimmende-laternen-1508  (Ominia Scriptum, Alemanha)
Inglês – Floating Lanterns  
Polonês – Pływające latarnie  – poetycko zamieszkiwać świat  
novo livro de Aylê-Salassiê: TERRITÓRIO LIVRE!

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