Suicídio e Mídia III. Por Meraldo Zisman

Violência


SUICÍDIO E MÍDIA – III

MERALDO ZISMAN

Parte de nossa sociedade impõe padrões rígidos de desempenho para as crianças e jovens do sexo feminino como: casamento de crianças com adultos e até idosos, passando pelos episódios terríveis da castração feminina. E ainda permanecem conservadorismos étnicos e culturais, a maioria relacionada com religiões das mais diversas…

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O passado jaz no túmulo, mas, apesar disso, volta e meia age sobre o presente como se vivo estivesse. Retrocede como um fantasma ou um espectro. Poucos hoje em dia sabem ou lembram-se do denominado “Efeito Werther” que afeta a frequência de suicídio dos jovens.

Creio ser bom recomendar uma releitura do livro do romancista alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) Die Leiden des Jungen Werthers (Os Sofrimentos do Jovem Werther) que termina com o suicídio do protagonista.

O caso provocou uma onda de suicídios por imitação após a sua primeira publicação em 1774. Foi em referência a esse histórico-literário que o sociólogo David Phillips (1974) denominou, dois séculos depois, como “Efeito de Werther”, a ocorrência de um pico no aumento dos suicídios por contágio ou influência. No entanto, o impacto suicida do romance de Goethe nunca foi conclusivamente demonstrado.

O enredo do romance “Os Sofrimentos do Jovem Werther” relata a história de um jovem que, após desilusão amorosa, cometeu suicídio com um tiro na cabeça.

Em consequência, para reduzir o efeito mimético (reproduzir algo ou um comportamento de modo idêntico), a venda do livro foi proibida em várias partes da Europa, pois desencadeou uma onda de suicídios entre jovens imitadores. Até hoje diversos países têm códigos jornalísticos que tratam a temática do suicídio. Alguns vão ao extremo de não mencionar esses casos, como o código de ética jornalística da Dinamarca.

O suicídio de Marilyn Monroe foi um dos principais fatos que marcaram o ano de 1962. Ao longo do tempo suscitou diversos questionamentos e ensejou várias teorias de conspiração, do assassinato ao suicídio por overdose de barbitúricos e, segundo os noticiosos, o número de imitadoras aumentou após o evento.

Agora o Efeito de Werther deve ter muito mais efeito, com a popularização do “streaming”, uma tecnologia que envia informações multimídia através da transferência de dados, utilizando redes de computadores, especialmente a Internet, criada para tornar as conexões mais rápidas.

A mini serie da Netflix® intitulada: 13 Reasons Why, explora a razão pela qual a sua protagonista morreu por suicídio e provocou um debate para saber se a produção contribuiu para um aumento das taxas de suicídio.

…quaisquer dos costumes ligados às religiões, crenças, cultura, são protegidas por tradições, ancestrais. É difícil anulá-las. Os seus fantasmas retornam em metamorfoses das mais variadas, acompanhando o espírito do Tempo.

Pesquisa de maio de 2019, publicada no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry apregoou que, nos nove meses subsequentes ao lançamento do programa houve 195 suicídios a mais entre jovens norte-americanos de 10 a 17 anos do que o esperado com base em sequência histórica. Em abril de 2017, um mês depois do lançamento da série, 190 jovens americanos morreram por suicídio, número que é cerca de 30% maior do que as taxas de suicídio de cinco anos antes.

Agora, as atenções estão voltadas para novos disparos do autocídio como: drogas, mídias, IPhones, sem falar na Medicalização & Cia, a “depressão” (colocado propositalmente entre “aspas”) e outras psicopatologias contemporâneas que conduzem ao aumento do suicídio como também a lesões auto infligidas.

Parte de nossa sociedade impõe padrões rígidos de desempenho para as crianças e jovens do sexo feminino como: casamento de crianças com adultos e até idosos, passando pelos episódios terríveis da castração feminina. E ainda permanecem conservadorismos étnicos e culturais, a maioria relacionada com religiões das mais diversas. Quaisquer dos costumes ligados às religiões, crenças, cultura, são protegidas por tradições, ancestrais. É difícil anulá-las. Os seus fantasmas retornam em metamorfoses das mais variadas, acompanhando o espírito do Tempo.

Ou talvez desejem imputar a causa suicida nas jovens da atualidade às mudanças do contemporâneo ou, ainda, como os intelectuais midiáticos costumam fazer, culpar a época amorfa em que vivemos, denominada pelo filósofo do contemporâneo Zygmund Bauman (1925-2017) de Mundo Líquido, tão ao gosto dos politicamente corretos e conferencistas de YouTube.

Nada tenho contra os avanços técnico-científicos e particularmente os midiáticos…o que chamo atenção é ao endeusamento da ciência, como se tudo pudesse ser resolvido/explicado/causado por ela.

Termino com a frase de Leon Tolstói (1828-1910) “Eu escrevo livros, por isso sei todo o mal que eles fazem”. Imaginem agora! E o que mais vem por aí…

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SOBRE ESSE TEMA ESPECÍFICO, NÃO DEIXE DE LER TAMBÉM:

- Sexo feminino e Suicídio - I. Por Meraldo Zisman
- Sexo Feminino e Suicídio – II. Por Meraldo Zisman

Veja os outros artigos onde o autor versa sobre “VIOLÊNCIA”:

artigo I Medicina e Política. Por Meraldo Zisman

artigo IIA Epidemiologia algorítmica na prevenção da violência. Por Meraldo Zisman

artigo IIICélulas espelhos. Por Meraldo Zisman

artigo IVViolência Interpessoal. Por Meraldo Zisman

artigo V – O Medo Ancestral. Por Meraldo Zisman

artigo VIViolência e Drogas. Por Meraldo Zisman

artigo VII Apreciações gerais e tipologia da violência. Por Meraldo Zisman

artigo VIIIViolência Oculta. Cripto-violência. Por Meraldo Zisman

artigo XIXGravidez na Adolescência. Por Meraldo Zisman

artigo XSíndrome da criança espancada. Por Meraldo Zisman


Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE).

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